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Carreiras: a boa trip de Domingos Oliveira

Luiz Zanin Oricchio

24 Junho 2007 | 12h01

Logo no começo há um bate-papo entre amigos no bar, discutindo a relação entre cinema e teatro. Vantagens de um sobre o outro e vice-versa. Conversa de botequim, mesmo porque uma arte não é superior ou inferior a outra. A introdução cai bem porque o projeto de Carreiras, como outros de Domingos Oliveira, faz essa passagem natural entre o palco e a tela. Como Amores e Separações, Carreiras foi montado no teatro e depois chegou ao cinema.

Mais ainda: Carreiras é inspirado diretamente em Corpo a Corpo, peça de Oduvaldo Viana Filho. E mantém diálogo com o clássico de Mauro Bolognini, La Notte Brava, roteiro de Pasolini. A certa altura, a personagem Ana Laura (Priscilla Rozenbaum) dirá: “Essa é a minha longa noite de loucuras”, título em português de La Notte Brava. É, portanto, nesse universo híbrido entre cinema e teatro que Carreiras vai se desenvolver.

E seguirá a ambigüidade do próprio título, que fala tanto da problemática carreira profissional de Ana Laura quanto das infindáveis carreiras de cocaína que ela vai cheirar durante a sua noite de loucuras.

O primeiro aspecto a ser destacado é o tour de force de Priscilla, recompensada com um Kikito de melhor atriz quando concorreu no Festival de Cinema de Gramado. O filme é ela o tempo todo, um solo magnífico e, imagina-se, extenuante. Ela faz a âncora de um canal de televisão que vê seu emprego ameaçado porque está chegando aos 40 anos e a telinha é implacável e voraz em sua busca pelos rostos jovens. A longa noite alterna momentos dramáticos e cômicos (como quando ela resolve desabafar seus problemas com um entediado porteiro noturno). Mas predomina a nota pesada com telefonemas a chefes da emissora, a ex-colegas, amigos e amigas, culminando com a esticada, já na boca da madrugada, ao Baixo Leblon.

Sendo um quase monólogo, apresenta um único ponto de vista, o da narradora. Que não hesita, vez por outra, em dirigir seu olhar à câmera (quer dizer, ao espectador), jogando com o antiilusionismo. A obra é representação do real e não o real, ele próprio. O recurso de distanciamento, brechtiano, empresta um peso de verdade ao desesperado depoimento de Ana Laura sobre si mesma e sobre o peso esmagador do mercado de trabalho sobre o indivíduo contemporâneo.

Porque o filme é isso, no fundo: uma mulher acuada, num momento decisivo da vida e da profissão, e que oscila entre a vontade de potência de uma fera ferida e a consciência de si e da sua fragilidade. O legal da direção é deixar-se flutuar rapidamente entre esses estados de ânimo contrastantes. Ajudada, claro, pela câmera de Dib Lutfi, e também pela garra da atriz. Pode-se estranhar um pouco o artifício do desfecho, um tanto fácil a meu ver. Mas o fato é que sem uma virada radical desse tipo não seria possível expor a grande contradição da personagem, que afinal não sabe se o que quer é aquilo que deseja. Contradição comum a todos nós, aliás.