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Capote e o ilusório desejo de ser famoso

Luiz Zanin Oricchio

02 Junho 2007 | 17h27

De novo a história de Truman Capote e seu livro famoso, A Sangue Frio, um divisor de águas no jornalismo literário mundial. De novo, porque não é possível esquecer a figura de Philip Seymour Hoffman na caracterização do escritor, o que lhe valeu um Oscar em 2006. O filme era dirigido por Benett Miller. A versão agora é de Douglas McGrath, baseado no livro de George Plimpton sobre Capote, e se chama Confidencial. A história de Capote não comporta muitas variações, mas talvez interpretações diferentes. E a boa notícia é que o filme de McGrath é também muito interessante.

Quem agora interpreta o escritor é Toby Jones, e sua auxiliar, a escritora Peggy Lee, é vivida por Sandra Bullock. McGrath aprofunda a imersão do dândi na bastante rústica cultura do Kansas, onde o crime se deu. É um peixe fora d’água, mas, convenhamos, um peixe com infinita capacidade de adaptação. A ponto de fazer-se confiável e mesmo querido em uma sociedade que nada tinha em comum com a corte nova-iorquina a que estava acostumado. Mas basta que ele durante uma festa comece a contar fofocas de atrizes para conquistar os corações mais reticentes.

E, de outro lado, há o relacionamento, este para lá de inusual, com um dos implicados no crime, Perry Edward Smith, vivido pelo mais recente 007, Daniel Craig. Num filme que insiste bastante sobre a homossexualidade de Capote, não chega a ser inesperada a ênfase sobre o caráter heterodoxo que ligava os dois homens. Um, à procura de um livro magistral, original e bombástico que o levasse à fama (e fortuna, claro); outro, no corredor da morte, à espera da forca. Mas como todo homem, mesmo um condenado à pena capital, alimenta esperanças e ilusões, Perry pode ser retratado de forma densa.

O cerne da história é a obsessão pela fama e o quanto de ilusório ela comporta. Capote é um tolo, que consegue o que deseja e passa o resto da vida tentando se redimir desse sucesso. Ou do preço ético que teve de pagar por ele.