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Brasília 2014: Novo cinema dá as cartas na mostra mais antiga do País

Luiz Zanin Oricchio

16 Setembro 2014 | 08h28

Com a exibição de um superclássico brasileiro, em cópia restaurada, começa nesta terça-feira a 47.ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Deus e o Diabo na Terra do Sol, uma das obras-primas do cineasta Glauber Rocha (1938-1981), completa 50 anos de lançamento. A cópia, estalando de nova, será projetada no Teatro Nacional Claudio Santoro, onde ocorrem as noites de abertura deste que é o mais antigo e tradicional festival de cinema do calendário brasileiro. O festival teve origem na Semana do Cinema Brasileiro, iniciativa de Paulo Emilio Salles Gomes e colaboradores, quando o crítico paulista dava seu curso de cinema na então recém-fundada Universidade de Brasília.

 

 

Nada melhor, portanto, que marcar a noite solene de Brasília com esta obra, que além de figurar na ponta do cânone do cinema nacional, relembra uma época em transe, tanto das artes quanto na política do País. De fato, há uma coincidência incrível na história de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ele foi apresentado aos jornalistas em 13 de março de 1964, no mesmo dia do Comício da Central do Brasil no qual o presidente João Goulart reafirmava sua disposição de promover as chamadas reformas de base na sociedade brasileira. Tinha contra si o dispositivo militar e parte considerável das elites e da classe média. O golpe que o tirou do poder eclodiu duas semanas depois, em 1.º de abril. Filme e golpe fazem 50 anos em 2014.

 

 

 

Divulgação
“Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Clássico de 50 anos

 

 

 

Rever hoje Deus e o Diabo equivale a entrar numa máquina do tempo e sentir a adrenalina daqueles idos de março de 1964. Através da história do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey), acompanhamos a transformação de uma consciência, passando por várias etapas. A revolta contra o patrão, o fanatismo religioso, a violência anárquica do cangaço, até a corrida em direção ao mar, que simboliza a libertação. Ou a revolução social, julgada no horizonte de possibilidades da sociedade de então, prognóstico clamorosamente desmentido pelos fatos.

 

O filme é brilhante, com a incorporação da narrativa de cordel e outros motivos nacionais, mesclados a influências de Buñuel, Brecht, Eisenstein, música de Villa-Lobos e moda de viola de Sérgio Ricardo, com letra do próprio cineasta, além das atuações empolgantes de Othon Bastos como Corisco, e Maurício do Vale no papel de Antonio das Mortes, o matador de cangaceiros. 50 anos depois de lançado, Deus e o Diabo tornou-se um mito do cinema brasileiro, emblema das esperanças perdidas da esquerda revolucionária. Precisa sair de novo às ruas, ou melhor, ser levado às telas, para ser discutido e reavaliado pelas novas gerações. Na História, tem lugar assegurado.

 

Depois desse começo de impacto no Teatro Nacional, o festival migra no dia seguinte para sua casa, o Cinema Brasília, sede da principal mostra competitiva, a razão de ser de todo festival. Nesta, serão apenas seis longas-metragens em concurso, quase todos inéditos. Concorrem Sem Pena, de Eugênio Puppo (SP),Brasil S/A, de Marcelo Pedroso (PE), Pingo D’Água, de Taciano Valério (PB),Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós (DF), Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro (PE), e Ela Volta na Quinta, de André Novais Oliveira (MG). Destes, apenas Branco Sai, Preto Fica participou de outro festival, o Olhar de Cinema, de Curitiba. Os outros têm em Brasília sua primeira janela de exibição. Além dos seis longas, 12 curtas disputam os troféus Candango e prêmios em dinheiro, no total de R$ 625 mil. O melhor longa leva nada menos de R$ 250 mil, uma pequena fortuna para filmes que, em sua totalidade, transitam na faixa do baixo orçamento.

 

Essa é uma das características marcante desta 47.ª edição: não há filmes de medalhões do cinema brasileiro. Todos, sem exceção, podem ser alinhados sob o rótulo um tanto heterogêneo de “novo cinema brasileiro”. Não se pode dizer que este seja uma “escola” ou um “movimento” estético, no sentido usual desses termos. A uni-los, apenas a idade relativamente baixa dos diretores, a proposta artesanal (por oposição à industrial) de realização, o diálogo com estéticas alternativas, avessas ao mainstream. Não por acaso, apenas Pernambuco, epicentro do cinema de autor brasileiro atual, comparece com dois concorrentes em Brasília.

 

Antes, esse tipo de foco era característico da Mostra de Tiradentes, a meca do cinema experimental brasileiro. Agora, o modelo mineiro se espraia para outras latitudes e longitudes e chega ao Festival de Brasília, cujas tradição e importância o fariam mais propício a impor modelos que a segui-los.

 

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