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Brasil x Cuba

Luiz Zanin Oricchio

04 Junho 2007 | 23h04

FORTALEZA – Mais dois filmes foram exibidos na mostra competitiva do Cine Ceará. Eu já os conhecia, mas quis rever. Quando você vê um filme pela segunda vez presta atenção a detalhes que às vezes escapam no primeiro contato. Os filmes foram Querô, pelo Brasil, e La Edad de la Peseta, por Cuba. Querô, de Carlos Cortez, eu havia assistido no Festival de Brasília do ano passado, e La Edad de la Peseta, de Pavel Giroud, em Havana, onde fui membro do júri.

O brasileiro foi mais bem recebido pelo público cearense do que o cubano, mas pode-se atribuir parte da responsabilidade ao horário de exibição. Querô passou primeiro. Peseta ficou para depois, sendo prejudicado pela debandada do público que sempre acontece nessas ocasiões.

São dois bons filmes. Querô tem sua fraqueza em alguns monólogos do personagem-título, intepretado por Maxwell Nascimento. Seriam em tese para reforçar certas idéias junto ao público, como a carência, o abandono, o desespero. Mas, já se sabe, quando se quer reforçar demais, o efeito se perde. Entre as muitas virtudes do filme, eu destacaria um sentido de câmera precisa, próxima aos intérpretes, colocando a linguagem do filme na corporalidade mesma da história escrita por Plínio Marcos. O garoto é filho de uma prostituta que morreu por ter bebido querosene, daí o apelido maldoso. Cresce na rua, é violentado na Febem, torna-se marginal. O ponto de vista é obviamente simpático ao personagem, mas não cai na armadilha ingênua do “homem bom, que a sociedade corrompe”. Esse tipo de rousseauísmo primitivo muitas vezes assola a produção nacional. Mas não se trata do caso.

Mesmo porque o texto de Plínio problematiza muito a relação clássica entre explorador x explorado, uma vez que, segundo ele, a própria arraia-miúda costuma se entredevorar. Essa posição, me lembro, causou não pouca perplexidade na esquerda quando Plínio Marcos surgiu.

La Edad de la Peseta tem esse título misterioso, tirado da expressão cubana que define a idade entre sete e onze anos, como “a mais chata”. Quem está na idade da peseta é o garoto Samuel (Ivan Carreira), filho de mãe separada, que vive na moralista Cuba do final dos anos 1950. Os rebeldes já se instalaram na Sierra Maestra, Batista balança no poder, e Samuel vai viver na casa da avó, uma fotógrafa interpretada pela espanhola Mercedes Sampietro.

O tom histórico é dado por imagens documentais de Fidel Castro discursando, no início do filme, e dos rebeldes, já vitoriosos, entrando em Havana, em 1960. Tudo é usado com muita discrição e não se pode dizer que seja filme de propaganda, embora acabe contando a história de uma família de classe média que se vai para Miami quando sente que a revolução venceu.

Mas esses solavancos da história cubana servem apenas de pano de fundo para um filme centrado nas dores e alegrias do crescimento, com suas inseguranças, a descoberta da sexualidade e outras tantas lições que se aprendem (ou não) na pré-puberdade. A ambientação é romântica, há música em excesso e fotografia em tons dourados. Boa direção de arte para um filme de época, mas todas essas qualidades são insuficientes para fazer de La Edad de la Peseta um trabalho de fato marcante. Às vezes ele se parece (e em mais de um ponto) a O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hambúrguer. Só que o brasileiro articula melhor que o cubano essa relação entre história pessoal e a História com agá maiúsculo.

La Edad de la Peseta não é mau filme. Apenas um pouco convencional demais. Falta-lhe clima, essa qualidade impalpável do cinema, mas determinante para a fruição do espectador.