Bom começo do Cine Ceará com ‘Uma Mulher Fantástica’
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Bom começo do Cine Ceará com ‘Uma Mulher Fantástica’

Luiz Zanin Oricchio

06 Agosto 2017 | 11h31

Daniela Vega

Fortaleza – Bonito filme de abertura do 27º Cine Ceará com ‘A Mulher Fantástica’, de Sebastián Lelio (Chile). O filme havia causado alguma polêmica quando apresentado no Festival de Berlim, mas foi bem recebido. Li algumas críticas, em especial na imprensa francesa, que se queixam de uma certa “vitimização” da personagem trans. Ora, existem personagens que são mesmo vítimas preferenciais nas nossas sociedades. E, certamente, trans estão entre elas, ao lado de negros e pobres em geral. De modo que tendo a achar meio frufru esse tipo de reparo. Coisa de branquinho enjoado.

Passemos. Daniela Vega faz Marina, que mantém um caso com um homem mais velho. Mais que um caso, na verdade. Ela diz que são uma “pareja”. Um casal. E por que não? Bem, quando o homem morre de um aneurisma, o mundo desaba sobre Marina. Mesmo porque ele caiu da escada e apresenta ferimentos. Entra a polícia, entra em especial a família do morto, ressentida pela escolha sexual do patriarca.

O  filme passa em revista a série em aparência infindável de preconceitos alimentados pela sociedade. Por nós mesmos, que fazemos essa sociedade em seu conjunto. E Marina é retratada de maneira discreta, sóbria e com toda a dignidade.


Do ponto de vista estético, Lelio calibra a obra entre o realismo e um certo apelo ao fantástico. Algumas cenas parecem sonhadas, ou imaginadas pela personagem. E há um mistério – o que teria ela encontrado no armário da sauna frequentada por seu parceiro.? É drama social, melodrama, thriller, etc. “O próprio filme é um dispositivo trans”, diz Maria Soledad, montadora do longa e presente em Fortaleza. Nesse sentido, destoa da filmografia anterior de Lelio, em especial de Gloria, seu grande sucesso, que trabalha no registro realista de maneira contínua.

Talvez a chave dessa postura, prossegue a montadora, é a participação da protagonista, que é de fato trans, não é uma atriz profissional e deu o tom ao “dispositivo filme”. Ela é cantora lírica de fato e canta no filme. Está dublada quando canta uma canção popular como Periodico de Ayer, por exemplo.

Gloria fez quase 200 mil espectadores no Chile, o que é muito para o país. Já Uma Mulher Fantástica deu 50 mil, o que, para a proposta do filme, também é muito bom. Além disso, diz um jornalista chileno, Polo Muñoz, a repercussão no país foi enorme. Daniela Vega tornou-se uma figura nacional, aparece em capas de revistas, e mesmo em uma revista de moda, que estampa uma trans pela primeira vez em sua história.