‘Boi Neon’, obra de exceção
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‘Boi Neon’, obra de exceção

Luiz Zanin Oricchio

18 Janeiro 2016 | 16h09

boi

Há algumas ideias progressistas que orientam a trama de Boi Neon, novo
longa de Gabriel Mascaro. Entre elas, a ideia de questionar papéis
sexuais rígidos, o que implica em desfazer estereótipos. Outra: presta
atenção às novas composições familiares, que mantêm suas funções
reprodutivas e afetivas tradicionais sem precisarem obedecer ao
esquema mamãe-papai-filhinho. Há também uma visão moderna e
modernizante a respeito do nordeste, não mais visto como nos tempos do
Cinema Novo ou do ciclo do cangaço.

Enfim, o pernambucano Mascaro obedece ao mandamento de todo artista –
se é para fazer, é melhor fazer algo que ninguém tenha feito. Make it
new, como dizem os vanguardistas. E isso não se refere somente à
linguagem artística empregada, mas à própria articulação e tratamento
dos temas propostos.

O que temos em Boi Neon é o mundo das vaquejadas, na qual um vaqueiro
(Juliano Cazarré), competentíssimo no trato com os animais, é, acima
de tudo, um costureiro de mão cheia e aficionado da moda. Ou a
caminhoneira vivida por Maeve Jinkings, mecânica hábil com suas
ferramentas e que, nem por isso, perde sua feminilidade. Há outro
vaqueiro que se junta ao grupo, Júnior (Vinícius de Oliveira, de
Central do Brasil), metrossexual perfeito, muito preocupado com
perfumes e com seus longos cabelos.

Em entrevistas, Mascaro tem dito que não se trata de inverter clichês
associados ao sexo dos personagens, mas trabalhar com a expansão dos
gêneros. Proposta política, ousada, esclarecida e que, em termos
artísticos, se expressa sem artificialismos. A narrativa dá conta de
uma história crível, embora pouco usual. Ou seja, não acontece aqui
uma falha muito comum a filmes de tese, esses que têm uma ideia a
demonstrar e colocam os personagens a serviço dessa prova, muitas
vezes de forma mecânica. Em Boi Neon, os personagens parecem todos,
sem exceção, verossímeis, com vida própria e sujeitos a contradições.
Por isso mesmo, podem provocar, no espectador, essa sensação de
deslocamento que leva a refletir e questionar seus próprios pontos de
vista.

Da mesma forma, as locações pouco têm a ver com as do Nordeste
tradicional, como ele foi pintado pelo Cinema Novo, com a seca, a
miséria, os conflitos de terra. Um momento, porém. O Cinema Novo e
seus clássicos (Deus e o Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas, Os Fuzis,
Cabra Marcado Para Morrer) não falsificava nada, é bom dizer antes que
algum revisionista aventureiro venha assacar contra Glauber Rocha,
Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e Eduardo Coutinho. O campo
nordestino, com suas condições geográficas adversas, e imensas
disparidades sociais, se mostrava palco perfeito para encenar as
desigualdades do Brasil como um todo. Nada disso era ou é falso. Pelo
contrário. Boi Neon, no entanto, abre espaço para outras vertentes.
Filmado em cidades como Picuí, Santa Cruz do Capibaribe, Caruaru e
arredores, põe em cena o mundo das vaquejadas e do polo têxtil do
agreste. Abre o leque de percepção, simplesmente, e atualiza esse
recorte com o diálogo entre o regional e o global. Boi Neon é uma
coprodução entre Brasil, Uruguai e Holanda e conta com participação de
artistas e técnicos de outras nacionalidades. Nem por isso é daqueles
produtos globais, chicletes para todos os gostos e nenhum. Mantém sua
autenticidade.

Talvez até por isso mesmo tenha sido bem aceito no âmbito
internacional. Participou da seção Horizontes do Festival de Veneza e
ganhou o Prêmio do Júri. Tem recebido críticas positivas da imprensa
internacional (como Variety e Hollywood Reporter) e agradado em outros
festivais. Visualmente bonito e intenso, evita o esteticismo de que
padecia Ventos de Agosto, trabalho anterior de Mascaro. Boi Neon é um
filme de equilíbrio, embora não perca a força e o destempero que o
tornam uma obra de exceção no cinema brasileiro contemporâneo.