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Bernardet, o radical

Luiz Zanin Oricchio

10 Junho 2007 | 10h27

Amigos, vale a pena ler a entrevista que o jornalista Antonio Gonçalves Filho fez com Jean-Claude Bernardet para o Cultura deste domingo.

Abaixo, texto meu sobre o livro de Bernardet, Brasil em Tempo de Cinema, que completa 40 anos de publicação.

De que maneira ler um ensaio sobre o cinema brasileiro escrito há 40 anos? Considerando-o de antemão datado? Ou, pelo contrário, dando a ele a aura benévola de um ‘clássico’, já consagrado pela própria antiguidade? Brasil em Tempo de Cinema não se enquadra em nenhuma dessas duas categorias. Diz muito sobre o cinema que se fazia naquela época e pode dizer bastante sobre o cinema que se faz atualmente. Nem merece ser rotulado de clássico, se entendemos com isso um tipo de obra que obriga a reverência, mas já não mantém contato com o mundo atual.

Brasil em Tempo de Cinema é, sim, um clássico do ensaísmo brasileiro, se usarmos esse termo na acepção que lhe dá Italo Calvino – uma obra que nunca diz completamente tudo aquilo que tem a dizer. Podemos mudar nosso enfoque sobre a formação brasileira, mas nunca será inútil ler Raízes do Brasil, ou Casa-Grande & Senzala, por exemplo. São obras que dão testemunho sobre estilos de interpretar o País em determinado momento, e nos fazem refletir sobre tudo o que mudou do tempo em que foram escritos para cá. E sobre aquilo que também não mudou.

Jean-Claude Bernardet escreve no calor da hora. E o faz em um período dos mais efervescentes do nosso cinema, talvez o mais vital da história dessa arte entre nós. Seu recorte se dá entre os anos de 1958 e 1966, em plena criação e curso do que se chamava Cinema Novo. O livro que nos é entregue agora pela Companhia das Letras ganhou esclarecedor posfácio de Carlos Augusto Calil, mas o texto de Bernardet está tal e qual saiu em 1967, na primeira edição, pela Civilização Brasileira.

Trata-se de um texto combativo, candente em suas imperfeições assumidas, e também em suas ousadias. Não se furta, por exemplo, em incluir em sua análise obras que conhece apenas por ouvir dizer, como Limite, de Mário Peixoto, que, na ocasião, era pouco mais que um filme mítico, visto por pouca gente. Fala de Terra em Transe, a obra-prima de Glauber, que ele conhece apenas pelo roteiro, pois o filme não havia sido lançado.

Jean-Claude poderia ter mexido no texto, para evitar essas lacunas. Preferiu deixá-lo como está. E fez bem, porque desse sentido de urgência vem a sua força, que seria atenuada por correções e complementações a posteriori. Sente-se em suas linhas a premência daquele ‘tempo de guerra’, para lembrar a estrofe de uma canção famosa na época. Tempo de um cinema que se quer afirmar como autenticamente brasileiro, revolucionário, ligado aos interesses do povo. Tempo dos primeiros anos de ditadura militar, com a censura já operante, mas dispondo ainda de atmosfera relativamente respirável, pois o fechamento do regime viria somente em dezembro de 1968, com o AI-5. Um ano depois, portanto.

Nessa época de militância, Brasil em Tempo de Cinema surge com uma tese bombástica, o fio condutor da sua argumentação: o novo cinema brasileiro, que julgava falar em nome do povo, era, na verdade, expressão da classe média. A mesma classe social a que pertencia a maioria dos seus realizadores. Dinamite pura, ainda mais vinda de um jovem francês, que se instalava no âmbito do cinema brasileiro como se estivesse em sua casa, e ousava dizer aquilo que muita gente sequer se permitia pensar.

Não eram afirmações peremptórias, ideológicas, ou simplesmente feitas pour épater. A conclusão vinha da análise cerrada dos filmes; Bernardet ia além da temática aparente e buscava descer às estruturas mesmas das obras. Sem deixar de admirar muitos dos filmes analisados, detectava neles essa constante, a expressão de uma classe social perplexa, seduzida pela burguesia e acuada pela própria idéia da proletarização. A classe média identificava-se imaginariamente com o povo, mas procurava, de fato, encontrar uma saída para si própria.

Pode-se questionar muita coisa neste livro. O conceito de ‘classe média’, onipresente, sequer é definido de maneira precisa. Pode-se também fazer reparos (mas nunca negar que se trata de uma idéia seminal) à estratégia, de fundo lukacsiana, de tratar a produção brasileira como um todo, o conjunto de filmes imaginado como uma gigantesca ‘obra coletiva’. Pode-se também dizer que o autor privilegia mais a análise temática que a do material fílmico, embora se encontrem sacadas extraordinárias, aqui e ali, sobre a forma das obras. Mas não se trata de uma posição mais sistemática, como a que encontramos em obra posterior de Bernardet, esta dedicada ao cinema documentário, Cineastas e Imagens do Povo, em que as análises se concentram, de fato, sobre o material áudio-visual.

O que não se pode negar é que, neste nosso tempo medíocre, em que a crítica se contenta em distribuir estrelinhas e dizer se tal filme é bom ou ruim, um livro como Brasil em Tempo de Cinema produz o som de uma bofetada. Que ousadia, tomar uma produção em seu conjunto e interpretá-la, de maneira tão incisiva que poderia criar resistências, mas nunca ser ignorada, por cineastas e outros críticos. Além disso, tratar o cinema como fato de cultura, e também como fato de política, já que as duas coisas andavam juntas. Quarenta anos depois, Brasil em Tempo de Cinema pulsa, vivo, forte e incômodo.

Obs: a pedidos, coloco a programação do Reserva Cultural em homenagem ao Jean-Claude. O ingresso aos filmes é gratuito:

Radicado no Brasil desde 1949, o professor e crítico Jean-Claude Bernardet tem sua obra revista a partir desta segunda-feira. Além de contar com uma reedição de seu livro Brasil em Tempo de Cinema, que está sendo relançado pela Companhia das Letras (230 págs., R$ 41), e de um catálogo, o público poderá conferir sua participação na tela em mostra que é promovida pela Reserva Cultural com o apoio da Cinemateca Brasileira e da ECA-USP.

Os diversos filmes contemplam a participação de Bernardet por trás e também diante das câmeras, já que mostram sua participação como diretor, roteirista e também ator.

O Reserva Cultural fica na Avenida Paulista, 900, no prédio da Fundação Cásper Líbero, localizado entre as estações Brigadeiro e Trianon – Masp do metrô. As seções serão realizadas de segunda a domingo, das 13h00 às 24h00 e o valor dos ingressos é de R$ 18,00 (estudantes: R$ 9,00). Há ainda a entrada promocional nas sessões até as 17h00, a R$ 13,00.

Mostra Jean-Claude Bernardet

Aberto ao público, com entrada franca:

Terça 12

12h00: Eterna esperança – Roteirista (1971)

12h40: Ladrões de cinema – Ator (1977)

Quarta 13

12h00: Disaster movie – Ator (1982)

12h40: Disseram que voltei americanizada – Ator (1995)

13h00: Crítica em movimento – (2004)

14h00: Disaster movie – Ator (1982)

14h40: Disseram que voltei americanizada – Ator (1995)

Quinta 14

12h30: Anuska, manequim e mulher – Ator (1968)

14h10: São Paulo, Sinfonia e Cacofonia – Diretor (1995)

Sexta 15

12h00: Gamal, o delírio do sexo – Roteirista (1969)

13h30: O Caso dos irmãos naves – Roteirista (1967)

Sábado 16

12h00: São Paulo Sinfonia e Cacofonia – Diretor (1995)

Domingo 17

12h20: Eterna Esperança – Roteirista (1971)

Serviço
Reserva Cultural
Endereço: Avenida Paulista, 900
Telefone (para público): (11) 32873529