Balanço final de Gramado (4)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Balanço final de Gramado (4)

Luiz Zanin Oricchio

19 Agosto 2008 | 19h21

matheus
Matheus Nachtergaele premiado em Gramado

Vários:

1) Festival de bom nível artístico. Não excepcional, mas bom. A curadoria de Sanz & Avellar impôs um bom equilíbrio entre o tapete vermelho e o cinema de qualidade na tela. Há que aprofundar nesse sentido.

2) O encontro de críticos foi bem preparado, inclusive com um livro contendo textos selecionados por Avellar. Muito interessante uma seleta com trechos de artigos de grandes críticos brasileiros e latino-americanos pensando sobre seu ofício. Na minha opinião, crítico que não reflete (continuamente) sobre aquilo que faz, não merece esse nome.

3) Com tudo isso de positivo, o encontro em si não funcionou muito bem. Houve confusão quanto ao local do debate, acabamos alojados numa sala muito pequena e o tempo foi reduzido. Em melhores condições, as discussões poderiam ter ido além e sido mais interessantes. Mesmo assim, vale destacar a fala do meu amigo Marcus Melo, sempre sincero e inspirado.

4) Os júris oficiais não produziram nenhum resultado aberrante. Mas foram tímidos, pouco ousados, na minha opinião. Entendo que os principais prêmios deveriam se concentrar em A Festa da Menina Morta (longa brasileiro), Perro come Perro (longa estrangeiro) e Booker Pittman (curta). Não foi assim.

5) O erro mais grave da premiação foi assinalado por um dos jurados, o crítico Marcelo Janot. Na reunião, eles haviam decidido dar o prêmio de melhor filme a Nome Próprio e, em segundo lugar, a Festa da Menina Morta, atribuindo-lhe o Prêmio Especial do Júri. Acontece que esse troféu foi dado logo no início da cerimônia de premiação, soando assim como uma espécie de consolação a Matheus Nachtergaele que, ao recebê-lo, já sabia de antemão que não havia ganho o principal. Estive com Matheus depois da cerimônia e ele confirmou essa impressão. Bem, a mesma coisa que houve com Janot aconteceu comigo em outro festival, quando eu fazia parte do júri. Recomendei expressamente a quem se ocupava do cerimonial para que o Prêmio Especial do Júri fosse o penúltimo a ser entregue. Para sinalizar que era uma segunda colocação. Inútil. Esse troféu foi o primeiro a ser entregue. Não sei quem ensinou essa tolice aos festivais brasileiros, mas a prática generalizou-se e assim o Prêmio Especial do Júri virou um prêmio de consolação, detestado pelos cineastas. Certa vez Vladimir Carvalho, grande documentarista, falou expressamente no palco: “Eu não agüento mais ganhar Prêmio Especial do Júri”. E com razão.

6) A curadoria inovou também no Prêmio do Júri Popular. Ao invés de cédulas distribuídas ao público no fim da sessão, ou votação online (como é no Recife), constituiu um colégio eleitoral escolhido por jornais de diversos Estados. Estes selecionam cinéfilos entre seus leitores e os levam a Gramado. Assim, formou-se um júri de cinéfilos e não popular. Tanto é que seu prêmio a filme brasileiro, pelo segundo ano consecutivo, coincide com o da crítica. Se o júri fosse popular mesmo quem teria ganho era Juventude, de Domingos Oliveira. Nenhum outro filme foi aplaudido como o seu nem despertou emoção tão positiva na platéia. Mas o júri “popular” apontou A Festa da Menina Morta.