Bach – o Mestre da Música
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Bach – o Mestre da Música

Luiz Zanin Oricchio

05 Outubro 2012 | 19h38

Pergunte a um músico sobre os pilares de sua arte e será inevitável que cite Johann Sebastian Bach (1685-1750). No entanto, para o cinema, Bach parece não ter o mesmo apelo romântico de um Beethoven, de um Lizst ou de um Chopin. Não virou personagem glamouroso de filme, talvez por conta da vida prosaica que se julga ter vivido. Bach é a obra; e obra não dá filme. Daí a importância da minissérie Johann Sebastian Bach – o Mestre da Música, lançada em caixa com dois DVDs pela Versátil.

Com quase seis horas de duração, a primeira coisa que a minissérie faz é mostrar que, ao contrário do que se acredita, Bach foi um personagem e tanto. Casado duas vezes, pai de 20 filhos (vários dos quais morreram crianças), travou luta renhida pela sobrevivência material e pela dignidade da sua música.

Mesma dignidade imprimida ao personagem pelo ator Ulrich Thein, que vive o compositor ao longo de toda a história. Isso porque o diretor Lothar Bellag decidiu, com acerto, concentrar-se na idade adulta do compositor, tomando-o quando já famoso e senhor absoluto da sua arte, tanto na composição quanto ao teclado de cravos e órgãos. Além do mais, o que se sabe sobre a infância de Bach é sujeito a controvérsias.

Há, claro, os episódios marcantes da biografia, os, poderíamos chamá-los assim, fait divers da vida de Bach, como o duelo de cravos com o virtuose maior em sua época, o francês Louis Marchand. Desafio que, na verdade, não se concretizou. Ao presenciar Bach estudando – passando de um tom ao outro com assustadora facilidade, e improvisando ao largo de toda a escala tonal – Marchand achou mais prudente bater em retirada para não ser humilhado.

Os tais duelos entre músicos, organizados para deleite da corte, consistiam na exposição de temas sobre os quais os músicos deveriam improvisar tão extensa e criativamente como pudessem. Bach era imbatível, em seu tempo. Uma de suas obras mais conhecidas, Oferenda Musical, resulta de um tema-desafio proposto a ele pelo rei Frederico II da Prússia.

Mas esses incidentes, digamos assim mais pitorescos, ainda que esclarecedores, são raros ao longo das seis horas da série. Nela, predominam as desavenças políticas de Bach e, sobretudo, a sua música.

Os problemas, primeiro. Talvez por ser produzida na antiga RDA, a Alemanha comunista, a minissérie tenha preocupação de mostrar Bach como um trabalhador (de gênio, é verdade, mas ainda assim trabalhador), em luta constante contra os desmandos do seu tempo. Nada disso é falso. Na época, o músico era um lacaio, um empregado da nobreza, em situação bem distinta da dos pop stars de hoje. Vagava, de uma cidade a outra em busca do pão, tendo de se haver com poderes locais e muitas vezes autônomos.Assim, vemos Bach mudar-se de Ohrdruf a Lüneburg, passando por Weimer, Arnstadt, Mülhausen, Köthen para finalmente se estabelecer em Lepzig, onde criaria parte importante de sua obra.

Vivia ao sabor do capricho dos senhores ou de suas esposas. Vemo-lo, por exemplo, querendo se demitir de um senhor que não valoriza sua arte, porém preso a um contrato draconiano e obrigado a ficar mesmo contra a vontade. Assistimos a seus anos de felicidade em Köthen (salvo pela morte súbita da primeira esposa, Anna Barbara), onde um príncipe amante da música lhe proporcionava toda a facilidade e prestígio. Acontece que um dia o príncipe casa-se com uma mulher que preferia cavalos e cães de caça a concertos e tudo muda para pior.

Desprestigiado em Köthen, Bach foi dar em Leipzig, num cargo inferior (o de Kantor, responsável pela educação musical dos meninos de coro) e com salário reduzido. Completava o orçamento tocando em enterros e casamentos. Acumulava uma série de funções e respondia a três instâncias diferentes na cidade: a universidade, o conselho da municipalidade e o consistório, representando a autoridade religiosa. Ao todo, acumulava sobre si o peso de 22 superiores das três instâncias, que, não raro, combatiam-se mutuamente. Quem já teve um chefe chato sabe como é; imagine 22!

Mas há, acima de tudo, a música. A sublime música de Bach, que encontra pleno espaço ao longo da minissérie. A música aqui não tem função decorativa, como na maioria dos filmes sobre compositores. Ela é orgânica, ocupa o centro e coloca-se como fio condutor de toda a história. Vemos ser executados (e, sobretudo, ouvimos) longos trechos de suas obras mais famosas, como a Tocata e Fuga em Ré Menor, para órgão, os Concertos de Brandemburgo, as Suítes para violoncelo, a Arte da Fuga, as Variações Goldberg, a Oferenda Musical. O planeta Bach é, virtualmente, impossível de ser abordado em seu todo. A minissérie faz a seleção possível e a desenvolve aos espectadores/ouvintes.

Das figuras femininas, a mais interessante e forte, sem dúvida, é a da segunda esposa, a cantora Anna Magdalena (Angelika Waller), uma presença difícil de esquecer para quem segue a história, apesar do porte físico pouco hollywoodiano. Sobre ela, e seu ponto de vista sobre a carreira do marido, há o imprescindível Crônica de Anna Magadalena Bach, do casal Jean Marie Straub-Danièle Huillet. (leia texto abaixo).

Crônica de Anna Magdalena Bach

Crônica de Anna Magdalena Bach é considerado uma das obras-primas do casal Straub-Huillet. Poderá ser visto dia 17/1, às 20h, no Centro Cultural Banco do Brasil, como parte da mostra Straub-Huillet, promovida pela entidade.

É um filme comovente, e mais ainda por seu rigor de concepção. Suas primeiras cenas já dizem tudo do método adotado. Vemos Bach interpretando ao cravo o longo trecho escrito para este instrumento no final do Allegro do Concerto de Brandeburgo nº 5. Notamos, ao instrumento, um virtuose real, sem qualquer trucagem ou o facilitário de filmar de um ângulo em que as mãos não são vistas. Nenhuma surpresa quando se sabe que JS Bach é interpretado no filme pelo virtuose holandês Gustav Leonhardt, também professor e musicólogo, defensor da ideia de que as obras devem ser executadas por instrumentos de época, porque neles e para eles foram concebidas e pensadas.

A cena é vista a partir de um ângulo fixo, com a câmera parada. No principio centrada sobre o solista e suas mãos, ela em seguida se afasta para abarcar o resto da pequena orquestra quando esta é solicitada a entrar no jogo da música, e então se detém. Esse será o estilo dominante ao longo do filme. A câmera obediente às necessidades da música. Simples, rigorosa, depurada ao máximo. A narração, em off, limita-se quase sempre a trechos do diário de Anna Magdalena (Christiane Lang).

Na verdade, Crônica é um filme sobre Bach, filtrado pelo olhar de sua esposa, cantora e filha de oboeista que ele conheceu em Köthen um ano depois de enviuvar. Se a minissérie de Lothar Bellag procura detalhar a trajetória de Bach, o longa-metragem de Huillet-Straub parece concentrar-se ainda mais sobre a arte – e também sobre o ambiente em que ela surge. Daí o cuidado, o detalhismo aplicado aos cenários, roupas e postura dos atores. Servem ao propósito de imergir o filme no ambiente do barroco para dele tirar a essência mesma do seu gênio musical maior.

Mais que ser um filme sobre Bach, poderíamos dizer que Crônica é um filme bachiano, por definição. Não apenas pela subordinação da câmera à música, mas pela encenação dramática própria do barroco, em que tudo “fala” entre si e se articula, da arquitetura à música, passando pelas vestimentas. Na maneira rigorosa como o filme é trabalhado, há uma aliança lógica com a música exata proposta por Bach, ligada à matemática, à mathesis universalis de que fala a filosofia. Um mundo de relações matemáticas que se expressam no universo, no movimento dos astros, no espírito, nas artes, nas letras. Tudo é uno e funciona segundo um princípio geral.

Mas há também a desordem do mundo e sua dramaticidade, e estas não estão contempladas na música das esferas. Bach, seus problemas de sobrevivência e sua doença, que o fez perder a visão depois de uma cirurgia fracassada. A morte, talvez por apoplexia, aos 65 anos, deixando Anna com uma fieira de filhos para cuidar. Pelo que se sabe, os mais velhos, seus enteados, ainda trapacearam na herança do pai e a deixaram em más condições. Anna Magdalena sobreviveu 10 anos a Bach e foi enterrada como indigente em Leipzig.

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