As capas do JT
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As capas do JT

Luiz Zanin Oricchio

31 Outubro 2012 | 09h40

Hoje, em sua coluna no Estado, meu amigo Antero Greco homenageia o Jornal da Tarde ao lembrar uma de suas capas mais famosas – a do garoto chorando a derrota da seleção brasileira para a Itália na Copa de 1982.

Já havíamos comentado o assunto mais de uma vez no passado, quando nem ele nem eu pensávamos que um dia o JT viria a acabar um dia. Eu disse a ele que a minha lembrança de capa histórica do jornal era a da vitória do Brasil sobre a Inglaterra, por 1 a 0, na Copa do México em 1970.

Não tenho essa capa para reproduzi-la, mas o leitor a imagine, se é que não se lembra. Durante anos ela ficou emoldurada na entrada das redações do Estado e do JT. Aquele foi o jogo mais difícil daquela Copa e o gol não saía. Acabou vindo numa jogada antológica em que Pelé recebeu o cruzamento na área, dominou a bola no peito, atraiu a marcação de vários adversários e empurrou-a para Jairzinho, que entrava livre pela direita. Jair chutou e venceu Banks, tido como o maior goleiro da Copa e que já havia defendido uma cabeçada mortal de Pelé.

O que fez o JT? Deu uma foto do gol? Não. Driblou o óbvio e estampou uma sequência fotográfica do rosto de um torcedor. Na série de fotos se expressava a preocupação, a tensão, a expectativa e, por fim, a euforia com o gol. Foi o dia em que o JT fez cinema em sua capa.

Essa foi uma, entre várias ocasiões, em que o jornalismo do JT saía do óbvio. Uma vez consultei no arquivo a cobertura da morte de Che Guevara na Bolívia, em 1967. Fiquei espantado pela extensão e pela qualidade do material. Uma aula de jornalismo. E de História.

Hoje o JT circula pela última vez, deixando em nós a lição de como texto, foto, espaço e talento podem e devem se fundir para dar origem às grandes narrativas jornalísticas.

Vai deixar saudades.