“Arte degenerada”
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“Arte degenerada”

O que aconteceu em Porto Alegre diz respeito ao conjunto da sociedade e ao valor que ela concede à liberdade, essa palavra que anda em tantas bocas. São limites entre a democracia e o autoritarismo que estão sendo testados.

Luiz Fernando Zanin Oricchio

12 Setembro 2017 | 14h00

Na opinião de parcela de brasileiros, a tela acima deveria ser retirada do Museu do Prado. Confinada a um porão, ou melhor ainda, queimada.

Trata-se de Jardim das Delícias, uma das obras-primas de Hyeronimus Bosch, pintada em 1504. Bem observada em seus detalhes, contém cenas de zoofilia, pederastia, sexo grupal e tortura. Ou seja, é exemplo acabado, tipo ideal de “arte degenerada”.

A expressão, se sabe, foi usada pelos nazistas para proibir um tipo de arte que lhes parecia decadente, afrontosa à moral ariana e, claro, criação de judeus.


Os stalinistas não andaram em trilhos muito diferentes. Ao impor o “realismo socialista” como cânone, deflagraram uma série de perseguições a artistas discordantes, além de patrocinarem uma arte medíocre. Há pouco esteve nas telas um filme de Andrzej Wajda, Afterimage, evocando a destruição de vidas e carreiras causada na Polônia pelos estetas stalinistas.

Quando a gente pensa que tudo isso está confinado aos livros da História e a confortáveis décadas de distância no tempo, surge algo como o caso do Santander e da exposição Queermuseu, suspensa por pressões de uma determinada organização. 

A sociedade é múltipla e cada qual pensa como quer, como pode ou como determina seu grupo de convívio social.

Nada a objetar a quem defende a virgindade, considera o aborto um crime e a pesquisa com células-tronco uma falcatrua científica. Nada contra quem acha as imagens expostas no Santander uma aberração da natureza e simplesmente se dispensa de vê-las. Nada a opor, desde que não tentem impor suas convicções ao resto da sociedade que pensa de maneira diversa.

Acontece que uma das características principais de grupos de pensamento autoritário é justamente a tentativa de impor suas ideias aos outros. Podem fazê-lo pelo debate, pela catequese ou por outros meios. Na caso, fez-se pressão sobre a instituição bancária que patrocinava e abrigava a exposição. Nos casos mais extremos, esses grupos se valem da força que dispõem no Congresso para vetar determinados tipos de lei e aprovar outras. No último estágio, quando podem, valem-se do poder do Estado para obrigar o conjunto da sociedade a seguir suas cartilhas morais particulares.

O que aconteceu em Porto Alegre diz respeito ao conjunto da sociedade e ao valor que ela concede à liberdade, essa palavra que anda em tantas bocas e corre o risco de não significar mais nada. São limites entre a democracia e o autoritarismo que estão sendo testados. E não me parece que seja de maneira inocente.

Vejamos. A tal entidade, organizadora da pressão para que a exposição fosse encerrada, esteve à frente das manifestações pelo impeachment de Dilma, a pretexto de ser contra a corrupção. Dilma caiu, a corrupção continua a ser exposta como uma chaga sem fim, mas eles parecem de súbito desinteressados do assunto. Como se depois de conseguido o objetivo, fosse melhor vasculhar outros cantos da nação.

Estão, a meu ver, olhando mais adiante, testando a musculatura em outras áreas de atuação. No caso, o campo moral, que sensibiliza uma parcela de brasileiros tanto quanto o tema da corrupção. Esta mesma parcela que precisa de líderes fortes para deter o que enxerga como deterioração dos costumes e da própria sociedade.

Essa atuação em Porto Alegre não deve ser vista apenas como manifestação de truculência e primarismo. Seria um engano. É uma ação tática, visando as eleições de 2018 e talvez algo mais além.

Esse caso tem também valor didático para parcelas das forças progressistas do país, que, embora minoritárias e desorganizadas a esta altura do campeonato, ainda existem. Pensou-se, depois do impeachment, que se poderia confinar a ação à defesa de conquistas no campo cultural e  dos costumes. Evolução na redução do racismo, a defesa da diversidade de gêneros, etc. Como se essas ações e conquistas não estivessem vinculadas à questão política em seu todo.

Estão, e como. O jogo continua e é um jogo grande. Não apenas a democracia política se viu manchada em 2016. Estão em perigo todas as conquistas libertárias e civilizatórias dos últimos anos. Não há por que ter ilusões. Porto Alegre foi só o começo. Foi um senhor sinal de alerta.