Almodóvar: mundo falocêntrico, utopia feminina
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Almodóvar: mundo falocêntrico, utopia feminina

Luiz Zanin Oricchio

25 Março 2009 | 13h56

pedro

Pedro Almodóvar é, num primeiro momento, o cineasta do pós-franquismo, da Espanha moderna, que se desrecalca depois de uma longa e moralista ditadura. É, como já se disse, o cineasta da “movida”, da farra da Madri liberada, mas, de maneira mais profunda, da abertura do país a toda a sorte de influências, antes filtradas pela alfândega censória do generalíssimo.

Anárquico e libertário, Almodóvar pôde ser moderno sem jamais deixar de ser profundamente espanhol. Divulgou uma Espanha colorida, fortemente melodramática e picaresca em filmes como Pepi Luci Bom (1980), Labirinto de Paixões (1982) e Maus Hábitos (1983), para citar alguns dos títulos mais conhecidos dessa primeira fase. Nela, o anticlericalismo radical (só acessível a quem foi criado em ambiente puritano) une-se à questão urgente do sexo. E, posteriormente, do desejo, tratado de maneira mais ampla em Matador (1986), A Lei do Desejo (1987) e Ata-me (1990). Interessa a Almodóvar esse impulso paradoxal do desejo humano, que força os limites do socialmente conveniente e é própria afirmação de vida, mas também do seu contrário, a morte, a extinção do ser. Eros e Tânatos, segundo o jargão da psicanálise.

Nesse universo ambivalente, não faltam personagens homossexuais, bissexuais, travestis, transexuais e mesmo heteros. A pulsão humana não se resume aos interesses da reprodução e da continuação darwinista da espécie, e Almodóvar coloca no centro da sua cinematografia esse caótico Eros humano que explode em todas as direções e em todas as formas, até mesmo na sua inversão mais radical, a morte. Seus filmes se desenrolam nesse universo multissexual, colorido, vibrante, nas cores da paixão e das variações possíveis em torno da ciranda amorosa.

Mas, fora isso, como numa espécie de círculo concêntrico, Almodóvar revela-se extraordinário conhecedor da alma feminina, e apologista de um tipo particular, a mulher latina. Suas atrizes favoritas logo passaram a usar o adjetivo de “almodovarianas”, tamanha a identificação com o projeto artístico e existencial do cineasta – Carmen Maura, Victoria Abril, Rossy de Palma, Marisa Paredes, e, agora, Penélope Cruz que, com ele em Volver (2006), desabrochou, perdeu aquele ar de chatinha e assumiu-se exuberante.

O interessante é que o Almodóvar anárquico dos primeiros filmes e, em especial, do grande sucesso Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988), sofre mutação sutil em sua fase mais madura. Sem nunca perder o gume crítico e a alma libertária, passa a imprimir tom mais terno a seus filmes. Como esquecer, por exemplo, o final de A Flor do Meu Segredo, com a música de Tonada de Luna Llena (cantada por Caetano Veloso), que acompanha o espectador como se o embalasse em doce conforto depois de tudo que lhe fora servido ao longo da trama? Ou o tom caloroso de Fale com Ela, um dos seus mais belos títulos recentes?

Neste, em meio a uma história como de hábito conturbada, o personagem Benigno (Javier Câmara) insiste que se deve conversar com as pessoas, mesmo com pacientes em coma profundo. É um patético apelo à comunicação neste mundo de balbúrdia em que as pessoas, por paradoxo, tendem a se isolar umas das outras. O cinema de Almodóvar, terno, caloroso, vibrante, ensaia um movimento em sentido contrário. Sem nunca ser diretamente político, ainda assim ele o é, ao se abrigar no vital universo feminino, refúgio para um mundo masculino e árido – mesmo que nesse mundo real as mulheres tenham participação cada vez maior, desempenhando seus novos papéis de maneira máscula.

É desse mundo ainda falocêntrico que Almodóvar faz a crítica mais consistente do cinema atual. A cumplicidade entre as suas mulheres, a maneira prática e ao mesmo tempo suave como enfrentam as contingências da vida, da doença e da morte, apontam, no pós-socialismo real, para um outro tipo de utopia contemporânea.

(Cultura, 22/3/09)

Leia entrevista com o cineasta, publicada no mesmo número do Cultura