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Adeus ao amigo Avellar (1936-2016)

Luiz Zanin

18 março 2016 | 19:31

Morreu o grande crítico carioca José Carlos Avellar, considerado um mestre por seu trabalho como escritor, curador e autor de livros fundamentais sobre cinema

avellar

 

De todas as conversas que tive com o Avellar, lembro sempre de uma, quando ele me contou que esteve na “cabine” de Deus e o Diabo na Terra do Sol, o emblemático filme de Glauber Rocha. “Cabines”, para quem não sabe, são as sessões privadas para jornalistas e críticos, que veem os filmes antes do público para poder escrever suas matérias. Acontece que a tal cabine se deu num dia especial: 13 de março de 1964. Mesmo dia do Comício da Central do Brasil, em que João Goulart anunciava suas Reformas de Base. Jango foi derrubado dias depois, em 1º de abril de 1964. José Carlos Avellar nos deixou hoje, 18 de março de 2016, quando a parte sadia do país tenta evitar mais uma aventura golpista contra a democracia.

Avellar tinha 79 anos e dizer que foi um crítico de cinema é dizer pouco. Verdade que ele militou demais na crítica jornalística, em especial no extinto Jornal do Brasil, onde escreveu por mais de 20 anos. Mas ele também escreveu livros, filmou, foi companheiro de estrada de todo o pessoal do Cinema Novo, trabalhou com política cinematográfica, foi curador (entre outros, do Festival de Gramado, junto com Sérgio Sanz), presidiu a Riofilmes, era representante do Brasil no Festival de Berlim. Agora ocupava o cargo de coordenador de cinema do Instituto Moreira Salles. Era um homem de cinema. Brasileiro assumido e homem do mundo. Meu amigo.

Não que a gente concordasse em tudo. Em cinema, até que em geral concordávamos, ele sempre em defesa do cinema brasileiro, linha que também procuro seguir. Sua atenção com o cinema latino-americano, esnobado pela parte cool da crítica, também nos unia. No entanto, quando fundamos uma associação nacional de críticos de cinema, ele não quis se unir a nós. Na condição de primeiro presidente, mandei um convite a ele, que, à sua maneira civilizada, recusou. Achava que a associação carioca preenchia essa função. Nunca mais voltamos a falar sobre o assunto. Eu o respeitava, e ele, a mim.

Mas era apenas isso e nunca nossa amizade foi arranhada pela divergência. Era uma alegria encontrá-lo nos festivais e por várias vezes dividimos mesas de debates. Avellar sempre tinha muito o que dizer. Era um estudioso sério, de imenso repertório cinematográfico e humanístico. Um grande crítico e pensador.

Dos seus livros, os que mais me tocam são O Chão da Palavra: cinema e literatura no Brasil, Ponte Clandestina e o ensaio sobre Deus e o Diabo na Terra do Sol, no qual consta aquela pequena história que ouvi de sua boca. Algumas palavras sobre Ponte Clandestina, que talvez seja sua contribuição maior no campo da reflexão cinematográfica. Nele, Avellar faz um levantamento criterioso do que os cineastas escreveram sobre o cinema na América Latina, em especial durante os anos 1950 e 1960. Era um tempo em que cineastas, além de filmar, também lançavam manifestos, produziam ensaios sobre aquilo que faziam, refletiam sobre o mundo. Eram pensadores, casos do brasileiro Glauber Rocha, dos cubanos Tomás Gutiérrez Alea e Garcia Espinosa, do argentino Fernando Birri e do boliviano Jorge Sanjinés. Pensavam em estética e pensavam em política, que, naquele tempo, não se separavam. Avellar, com rara fineza ensaística, capta o diálogo invisível que se tecia entre esses artistas de países diferentes, porém unidos pela condição comum de subdesenvolvimento. É uma aula de cinema e também de intertextualidade.  

Avellar vai fazer muita falta. Em especial num país onde as inteligências não estão propriamente brotando em cada esquina.

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