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A Vida Secreta das Palavras

Luiz Zanin Oricchio

19 Junho 2007 | 12h17

A diretora é catalã, o ator, norte-americano e a atriz, canadense. Esse mélange global não faz de A Vida Secreta das Palavras um desses produtos sem personalidade, sem cheiro e sem sal, como costumam ser essas co-produções internacionais muito abrangentes. Pelo contrário, a direção de Isabel Coixet, protagonizado por Tim Robbins e Sarah Polley passa verdade, que é que se procura em um certo tipo de cinema.

E que cinema é esse? Um cinema de sentimentos, que aspira à profundidade e, de maneira sutil, passa do plano pessoal para o político, desde que se considere a guerra como continuação da política por outros meios, na frase de Clausewitz.

Sarah Polley é Hanna, operária modelo, obrigada a tirar férias pelo patrão. Como não consegue viver parada (por motivos que mais tarde serão compreendidos), ela se emprega, casualmente, como enfermeira, para cuidar de um acidentado numa plataforma petrolífera. O ferido é Josef (Tim Robbins), imobilizado por fraturas e queimaduras, temporariamente cego, e dotado de língua ferina. O centro do filme está no relacionamento entre os dois. Entre a moça surda, que usa aparelho para audição, e o ferido que não pode enxergar, mas fala.

Existe mais do que uma metáfora óbvia nessas deficiências, uma temporária, outra permanente, dos protagonistas. Mais, porque no decorrer do filme o espectador irá perceber que Josef tem mais feridas do que aquelas visíveis, espalhadas por seu corpo, e é também um homem ‘que não quer ver’ certas coisas. Um cego voluntário. Hanna também terá seus motivos para não ver e ouvir e, sobretudo, lembrar de determinadas experiências. De comum, entre os dois, a dor, física ou moral, em geral ambas. Essa a linguagem comum entre doente e enfermeiro.

Isabel Coixet tem uma maneira serena de filmar. Busca uma luz difusa, discreta, e com ela envolve o ambiente desolado de uma plataforma petrolífera sem função, em meio ao mar sem fim. Filma com lentidão, dando tempo aos personagens, e também ao espectador. Os longos diálogos entre Hanna e Josef se estendem pelo tempo necessário para que se aprofundem. E tempo livre é o que não lhes falta, e nem aos outros poucos personagens que habitam aquela desolação. Um comandante que gosta de ficar só, o cozinheiro que busca um requinte de restaurante cinco-estrelas como compensação, o casal gay, um rapaz que faz shows de karaokê para essa platéia mirrada, o oceanógrafo que está lá para contar o número de ondas que atinge a plataforma. São todas figuras da solidão.

E há outro aspecto, que na verdade pode ser ‘o’ aspecto fundamental do filme, dedutível do seu título que pode não ser o melhor do ponto de vista comercial porque remete a um dicionário etimológico. Sim, para além do clichê, as palavras têm mesmo a sua vida secreta, suas ressonâncias inesperadas, remete a lembranças, e as materializa. É pelas palavras que Josef e Hanna evocam o passado e lhe dão forma. É por elas que se desencontram e talvez se encontrem.

Não deixa de ser curioso que seja um filme (quer dizer, um produto audiovisual) a fazer esse sólido elogio das palavras. Nem por isso, é bom que se diga, ele se torna ‘literário’, no mau sentido. Nada disso. A Vida Secreta das Palavras é perfeitamente ‘cinematográfico’, no sentido em que aproveita os recursos do cinema com bastante propriedade.

Apenas leva em conta esse fato, às vezes esquecido, de que o homem é um ser de linguagem; vive tão imerso nela que essa condição pode passar despercebida. Aliás, é bom mesmo que passe despercebida a maior parte do tempo, senão seria impossível viver. Esse o sentido, talvez, da misteriosa voz off, cuja presença pode significar a perdição da personagem, ou desaparecer, para a sua paz final. Belo filme.