A principal estreia é o impactante ‘Riocorrente’ mas há também Fellini, visto por Scola, ‘O Lobo Atrás da Porta’ e outros
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A principal estreia é o impactante ‘Riocorrente’ mas há também Fellini, visto por Scola, ‘O Lobo Atrás da Porta’ e outros

Luiz Zanin Oricchio

05 Junho 2014 | 14h42

 

 

 

RIOCORRENTE [Brasil, 2014], de Paulo Sacramento (California). A principal estreia de hoje. Um triângulo amoroso numa metrópole ensandecida. Paulo Sacramento, através dessa história com inserções documentais, faz um retrato do país que perdeu seu rumo, das metrópoles sucateadas, da falta de esperança e afeto. O filme brasileiro mais importante desde O Som ao Redor, numa estética de coquetel-molotov.

Cotação: ÓTIMO

O LOBO ATRÁS DA PORTA [Brasil, 2013], de Fernando Coimbra (Imagem). Outra boa estreia nacional, inspirada no caso policial verídico da “fera da Penha”, dos anos 1960. No subúrbio carioca, ciúmes, vingança e desvios levam ao sumiço de uma criança. Clima tenso de investigação policial, tom de tragédia grega, fotografia inspirada e roteiro lacunar, que respeita a inteligência do público.

Cotação: BOM

A PRIMEIRA MISSA OU TRISTES TROPEÇOS, ENGANOS E URUCUM [Brasil,  2014], de Ana Carolina (Pandora). Ainda entre os nacionais, a volta de Ana Carolina à direção, depois do ótimo Amelia, um filme de 2000. O longo tempo sem filmar talvez explique muita coisa. Ana Carolina tem uma carreira das mais respeitáveis, maravilhosa até. Do documentário sobre Getúlio até sua trilogia (Mar de Rosas, das Tripas Coração, Sonho de Valsa), passando por Amélia e o doc ficcional sobre Gregório de Matos, de 2003, construiu uma carreira autoral, uma assinatura no cinema nacional. No entanto, A Primeira Missa é um equívoco. Num tipo de alegoria pedestre, que remete à estética dos anos 1970, faz um filme sobre as raízes do Brasil e também sobre as dificuldades de fazer um filme nesta terra descoberta por Cabral. A ambição prospectiva não esconde o ressentimento de fundo da proposta. Quem se interessa por esse tipo de filme ainda hoje? Os planos finais do longa fazem lembrar a cineasta inspirada. Todo o resto não está à sua altura.

Cotação: REGULAR

OLDBOY – DIAS DE VINGANÇA [Oldboy, EUA, 2013], de Spike Lee (Paris).

A primeira pergunta que se deveria fazer a Spike Lee é “por quê”? Por que, diretor talentoso que ele é, fazer um remake de um filme coreano sem acrescentar qualquer coisa que o justifique? A história é a da pessoa que desperta presa a uma cela sem saber como foi parar lá e nem porquê. Permanece encarcerado por 20 anos até sair e buscar vingança. Trama rocambolesca, sanguinária e violenta a mais não poder. O filme original era legal. Este é uma contrafação.

VERMELHO BRASIL [Rouge Brésil, Brasil/ Canadá/ França/ Portugal, 2014], de Sylvain Archambault (H2O Films).

O francês Villegaignon chega ao Brasil, em meados, de 1500, para expulsar os portugueses e fundar a França Antártica. Novelão sobre o nascimento do Rio de Janeiro, inspirado em fatos históricos. Pelo filme se conclui que, caso o Brasil tivesse sido colonizado pelos franceses, hoje estaríamos todos falando inglês.

Cotação: REGULAR

UMA VIDA COMUM [Still Life, Reino Unido/Itália, 2013], de Uberto Pasolini (FJ Cines).

Bonito filme sobre um cidadão de profissão ingrata. Ele é incumbido de encontrar a família, ou amigos, de indigentes mortos, para dar-lhes funeral digno. Filme dirigido de maneira rigorosa, debruçado sobre um personagem sem carisma, minucioso em tudo o que faz, e solitário ele próprio. Não fosse o final um tanto problemático, estaríamos diante de um excelente filme.

QUE ESTRANHO CHAMAR-SE FEDERICO – SCOLA CONTA FELLINI [Che Strano Chiamarsi Federico! – Scola Racconta Fellini, Itália, 2012], de Ettore Scola. Imovision.

Aqui temos o grande Ettore Scola prestando homenagem ao amigo Federico nos 20 anos do seu desaparecimento. Usando de técnica ficcional, Scola retraça a vida de Federico Fellini desde quando este se muda de Rimini para Roma e se inicia no jornalismo satírico até quando começa a rodar seus primeiros filmes. É obra de intimidade mútua, de quem foi amigo, colega e admirador de um dos maiores cineastas de todos os tempos, autor de obras-primas como A Doce Vida e Oito e Meio. No final, Scola inventa um desfecho diferente para o velório do amigo, realizado em Cinecittà, no estúdio em que ele gostava de trabalhar. Assisti ao filme em Veneza, durante o festival, e houve quase uma enxurrada de lágrimas no interior da sala lotada. Choradeira amplamente justificada, apesar de Scola dizer que era uma simples homenagem e não havia motivo para tanta lágrima. Quando um grande, como Scola, homenageia um fora de série, como Fellini, temos direito de esperar pelo melhor.

Cotação: BOM