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A Paixão segundo Martin Scorsese

Luiz Fernando Zanin Oricchio

10 Março 2017 | 10h17

Eis aqui Martin Scorsese, depois de A Última Tentação de Cristo (1988), confrontado de maneira direta com a fé católica.
Há uma história por trás da produção de Silêncio. Em 1990, Scorsese leu o romance de Shusaku Endo numa visita ao Japão, quando lá estava para participar como ator, interpretando van Gogh, em Sonhos, de Akira Kurosawa. Leu o livro a bordo de um trem-bala e ficava cada vez mais fascinado, página após página. De volta aos Estados Unidos, foi atrás dos direitos do romance, mas só agora conseguiu transformar o texto em filme.
A história é a de dois jesuítas portugueses, Rodrigues e Garupe, que vão ao Japão atrás do mentor, padre Ferreira, que teria sido torturado pelos japoneses até abjurar a fé católica. A trama se passa no século 17, quando o poder japonês havia se decidido a extirpar o catolicismo em seu país.
Scorsese concebe a obra como um ato de fé. E como um verdadeiro martirológio. O filme já se abre com uma cena de tortura atroz, com católicos sendo queimados por água fervente. Não será a única sequência de tormento da história. Elas se sucedem, mesmo porque Scorsese parece de fato imbuído da necessidade do sofrimento como forma de ascese. Sabemos que a mitologia católica é construída dessa maneira.
Essa linha definida pelo sofrimento parece obscurecer outros aspectos que talvez levassem alguma luz à História. Os dois padres, vividos por Andrew Garfield e Adam Driver, põem-se em contato com uma cultura (religiosa, entre outros aspectos) diferente. A fricção entre religiões existe. Existia e continua a existir – basta olhar o mundo da intolerância que herdamos, alguns séculos depois. O curioso é o ponto de vista único: os cristãos, que lá estão para evangelizar os japoneses (ou seja, para catequizá-los para a seita “certa”) são os mártires. Os japoneses, os cruéis. No entanto, agem com métodos parecidos aos da Santa Inquisição, utilizados pela Igreja Católica no mesmo período, como é de conhecimento geral.
Ou seja, não há inocentes quando o assunto é o poder religioso e as formas que assume para se impor sobre os outros. Não fosse tão unilateral, Silêncio poderia servir como advertência sobre o fanatismo religioso. Contra os danos humanos de toda a luta pela hegemonia, religiosa ou laica. Mas Scorsese parece demasiado engajado em um dos lados da fronteira para oferecer uma visão iluminista sobre o tema.
Pelo contrário, seu catolicismo exacerbado, ambivalente e atormentado, encontra melhor forma de expressão quando se dedica a outros temas, em aparência distantes do campo religioso, como em Táxi Driver ou Touro Indomável. Nestes, a, digamos, pulsão católica, em suas contradições, aparece nas entrelinhas, mas de forma mais nítida e justa.
Por outro lado, há a questão da fé, tema da teologia que perpassa o filme. O título alude, sem dúvida, ao silêncio de Deus, essa antiga questão. Se Deus falasse o tempo todo, ou se manifestasse por milagres sucessivos, a fé não seria uma questão. Mas Deus não fala. Não responde a súplicas. Sua presença, para o crente, deve ser sentida. E nem pode ser deduzida pela via da razão. “Credo Quia Absurdum”, creio porque é absurdo, nas palavras de Santo Agostinho.
Essas considerações são tão agudas quanto difíceis de serem tratadas no cinema. Rodrigues (Andrew Garfield) e Garupe (Adam Driver) buscam Ferreira (Liam Neeson), o religioso desaparecido. Por alguns poucos minutos, podemos pensar na procura por Kurtz, o militar enlouquecido, internado na selva oriental de No Coração das Trevas, de Joseph Conrad, usado de forma livre por Coppola em Apocalypse Now. Esse aprofundamento progressivo numa cultura estranha (e assustadora), no universo do Outro, poderia ter dado o tom ao filme. Esse tom de êxtase e incerteza diante do Nada. Mas é claro que os protagonistas de Silêncio são imbuídos de tal maneira da certeza da sua fé, que seu estranhamento pode ser produzido pelo medo humano, mas jamais se completa na forma do horror, como em Conrad, ou Coppola.
Por outro lado, mesmo a abjuração dessa fé, como é o caso de Ferreira, pode soar como algo que tem a ver com Realpolitik, a política chã dos homens. Faz-se as coisas com as possibilidades que se têm num determinado momento. Quando nos defrontamos com uma força maior, será preciso conciliar, talvez recuar, sobreviver, para talvez avançar mais tarde, com energias renovadas. Acontece que a fé aspira a um absoluto, e este não aparece no filme de Scorsese. Esse momento mágico do absoluto é tão silencioso quanto o Deus dos católicos.
Por fim, e este me parece o ponto mais problemático num filme sobre a fé e a religião, em Silêncio não se sente a transcendência em nenhum momento. A crise da fé, a fidelidade, o embate religioso são temas do filme, mas não aparecem em sua materialidade, em seu corpo. Em especial, a fé, que, pelo imponderável, é o que existe de mais difícil de ser filmado, assim como a morte e o sexo. Difícil, mas não impossível. Uma obra-prima como Ordet (Palavra), de Carl Theodor Dreyer, chegou lá, a ponto de tornar crível uma ressurreição. Mas é uma raridade absoluta.
Apesar de todas as suas legítimas inquietações de base, Martin Scorsese fez, com Silêncio, apenas um filme sem alma.

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