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A ironia e a morte em Vocês, os Vivos

Luiz Zanin Oricchio

26 Outubro 2007 | 12h17

Vocês, os Vivos, de Roy Andersson, é um dos filmes mais originais da Mostra deste ano. Composto por 57 vinhetas filmadas com câmera parada, põe em cena personagens comuns, em situações ordinárias, mas com um certo ar irônico, o que as torna estranhas e portanto extraordinárias. Contradição? Vejamos.

Andersson já é conhecido dos amigos da Mostra por sua Canções do Segundo Andar, que passou na edição de 2000. Nele, o mesmo tom levemente surrealista que impregna este Vocês, os Vivos. E o que vem a ser esse surrealismo, definição talvez um tanto deslocada, uma vez que Andersson não trabalha com imagens ‘absurdas’ como as de Buñuel e suas associações com Dalí.

Os recurso de Andersson é um tanto diferente. Ele adota um ponto de vista distante (daí a câmera parada, recurso de linguagem), música que, no contexto, tem ar de mofa (dobrados militares) e um ponto de vista que termina por ser absoluto (o da morte que enxerga os vivos e portanto os coloca em perspectiva).

Esse distanciamento não significa que o filme se coloca ‘acima’ das contingências humanas, no chamado ponto de vista de Sírius. Coloca-se no mesmo nível, já que somos todos mortais. A ironia é participativa. O sarcasmo funciona em relação de superioridade. Por isso, a ironia é amiga da arte, enquanto o sarcasmo a nega.

Serviço

Cinesesc: Hoje, às 20h20.Cotação: Ótimo