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A guerrilha de Caparaó em questão

Luiz Zanin Oricchio

07 Junho 2007 | 23h31

Entrou em cartaz o documentário Caparaó, de Flávio Frederico. Eis um texto sobre ele.

No jargão da esquerda, Caparaó ficou conhecida como ‘a guerrilha do Brizola’. Mas o dinheiro era de Cuba para esse movimento armado, encravado na serra de Caparaó, divisa entre os Estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Formada principalmente por ex-militares, expurgados das Forças Armadas depois do golpe de 1964, a guerrilha seguia como bíblia a teoria do foco, de Guevara. Formação de um grupo guerrilheiro rural, que contaria com adesão da população explorada e iria crescendo, até descer para a cidade e tomar o poder como acontecera com os barbudos da Sierra Maestra.

Um filme assim funciona na base de depoimentos e Caparaó se ampara nas falas de oito dos ex-guerrilheiros. Ouve também três PMs que os prenderam, e um dirigente do MRN (Movimento Revolucionário Nacional), que comandava a guerrilha com dinheiro de Havana, passado via Brizola. Há outras fontes, embora mais raras: imagens supostamente inéditas das operações em Caparaó, encontradas no arquivo da extinta TV Tupi. Juntam-se a documentos provenientes dos antigos arquivos do Dops em São Paulo e no Rio de Janeiro, fotos e reportagens de jornais paulistas e cariocas.

O que se pode dizer desse material colhido e organizado em forma de filme pelo diretor Flávio Frederico? A primeira impressão que salta à vista é a ingenuidade do projeto de guerrilha, que sonhava reverter uma situação militar estabilizada não contando com mais de 17 militantes, em seu apogeu. Parte desse quixotismo se deve à impressão (até hoje vigente em certos meios) de que a vitória do golpe se devia à completa passividade de quem deveria sustentar o governo Goulart. Darcy Ribeiro falava muito nisso e Leonel Brizola, idem. Jango não quis resistir. Entregou os pontos e exilou-se no Uruguai. Portanto, havia uma convicção, em parte da esquerda, sobre a fragilidade do governo militar, diagnóstico que se revelou equivocado, para dizer o mínimo. Esse é o aspecto político-militar da coisa.

Mas existe também o lado humano e este talvez seja mais relevante que o primeiro, pelo menos neste momento da nossa história. E em que consiste esse ‘fator humano’? Na pergunta que somos obrigados a fazer: por que motivo um grupo de pessoas sobe uma serra, com poucos mantimentos e poucas armas, na doce ilusão de enfrentar sozinho um exército organizado? Um dos ex-guerrilheiros responde: ‘Tínhamos de fazê-lo, para estar à altura do nosso tempo.’

Era isso, porque por mais idealismo ou falta de cálculo que houvesse (e havia), era impossível a certa altura desconhecer que eles estavam colocando a própria pele em risco. Mais ainda: que tinham escassas possibilidades de sair daquela aventura com vida. O que leva seres humanos a esse tipo de afrontamento, a uma luta que se sabe, depois de algum tempo, não conduzirá à vitória, mas, à prisão, no melhor dos casos, e mais provavelmente, à cova? Um imperativo histórico, ético, político?

São perguntas implícitas não apenas em Caparaó, mas em todos os filmes sobre a luta armada que estão aparecendo por aí. O de Flávio Frederico figura, ao lado de Hércules 56, de Silvio Da-Rin, como ponto alto na história cinematográfica da guerrilha. Ao lado deles, há as ficções, como Cabra Cega, Nunca Fomos Tão Felizes, Araguaia, Quase Dois Irmãos e aqueles ficcionais, mas baseados em personagens reais como Lamarca, O Que É Isso, Companheiro?, Zuzu Angel, Batismo de Sangue. Filmes que, com seus problemas e/ou tendências ideológicas nos colocam numa situação estranha em época de passividade política: como foi possível existir um tempo em que determinadas pessoas, com todos os equívocos que pudessem ter, colocavam a vida em risco em nome de suas idéias?