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A graça da coisa está na torcida

Luiz Zanin Oricchio

09 Outubro 2007 | 19h50

Muita gente achava que, em função da superioridade do São Paulo, o desfecho do Campeonato Brasileiro seria chocho, sem graça como cerveja quente ou pão dormido. Eu mesmo tinha essa impressão. Mudei de idéia. Acontece que a luta pelas vagas da Libertadores está muito acirrada. E a batalha contra o descenso também. Só não vejo é muita gente fazendo questão da tal Sul-Americana. Até prova em contrário, essa “luta” reside apenas na retórica dos comentaristas. Aliás, abrindo um parêntese, parece muito fácil fazer esse torneio “pegar” – bastaria que sua conquista valesse uma vaga na Libertadores do ano seguinte. Aí sim, vocês iriam ver como todo mundo ia querer participar.

Mas, enfim, acho que nem é tanto a disputa pelas vagas da Libertadores e contra o rebaixamento o que vem esquentando um campeonato cujo líder guarda (ainda) grande distância em relação ao segundo colocado. É a torcida que anima essa reta final. Ou pelo menos algumas delas. Sem falar nas sempre aguerridas galeras do Grêmio e do Inter, no Sul, e as do Nordeste, sempre fervilhantes, foram as do Corinthians e do Flamengo que mostraram sua força na semana que passou.

Ora, são os dois mais populares do País. E ambos com times e campanhas nada animadores. O Corinthians continua na zona de rebaixamento e o Flamengo vegeta em insignificante 13º lugar. Tecnicamente, são duas lástimas. E, no entanto…que festa linda fez a torcida do Mengo na vitória contra o São Paulo no meio da semana. E como foi bonita, pá, a festa corintiana no triunfo sobre o líder no domingo. Talvez seja coincidência que as duas torcidas tenham resolvido apoiar para valer seus times contra o virtual vencedor do Brasileirão 2007, com entusiasmo tal que pareciam ser eles, corintianos e flamenguistas, que estavam a caminho do título e não o adversário.

Coincidência ou não, derrotar o campeão, carimbar a faixa do vencedor, tem gostinho especial e sempre foi um dos grandes prazeres de quem não pode chegar em primeiro. Uma consolação, dirão os objetivos, mas, enfim, o futebol também é feito dessas compensações simbólicas. E, claro, na fria matemática, os três pontinhos que corintianos e flamenguistas contabilizaram às custas do São Paulo bem que podem ajudar em suas posições na tabela. Motivos para comemorar não faltavam. Afinal, os dois eram zebras absolutas, mesmo que as pessoas viessem com aquela frase antiga de que clássicos são clássicos, e vice-versa. Será que rivalidades históricas equilibram equipes desiguais?

Porque mais notável ainda que o resultado é que as torcidas tenham acreditado na vitória e incentivado seus times. Essa fé tem poucos paralelos na experiência humana. Ou não é contra toda a lógica supor que um time como o do Flamengo possa ganhar do São Paulo? Ou que um Corinthians em crise profunda possa realizar proeza como aquela no Morumbi, com o já histórico gol de Betão no finalzinho do jogo? É a crença no sobrenatural, em estado bruto.

Em meio à emoção, não faltam lances cômicos. Nenhum deles, imagino, se compara à volta de Cuca ao Botafogo. O técnico saiu depois da derrota para o River Plate e assumiu Mário Sérgio, que dirigiu o time em três jogos e perdeu os três. O que se faz? Traz-se de volta o Cuca, como se nada houvesse ocorrido. Não sei bem por quê, mas sinto que esse episódio diz muito sobre o nível gerencial dos clubes no Brasil

(Estadão, Esportes, Coluna Boleiros, 9/10/07)