A fragilidade dos fortes
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A fragilidade dos fortes

Luiz Zanin Oricchio

19 Agosto 2008 | 19h25

diego
Diego Hipólito em Pequim

De vez em quando me ponho a pensar por que razão o esporte nos apaixona tanto. Claro, não há uma resposta pronta, pois o assunto é mais do que vasto. Infinito. E cada um terá suas hipóteses, mesmo porque não existe um motivo único para gostarmos da prática esportiva. Podemos dizer que é a beleza dos movimentos. Ou a adrenalina da competição. Ou o fato de que eles, os atletas, de alguma forma nos representam quando vestem a camisa do nosso clube ou as cores do nosso país. Há de tudo isso um pouco.

E há também a admiração, às vezes inconsciente, que sentimos por essas pessoas tão bem dotadas, que conseguem proezas que mal sonhamos realizar com essa nossa nossa massa física tão desajeitada e imperfeita em comparação com a deles. De certa forma, os atletas representam um ideal estético, o que remonta à antiga Grécia. E por isso se prestam tão bem à publicidade nessa nossa sociedade mercantilizada e escrava da imagem. Não sonhamos nos igualar a eles, mas podemos consumir os produtos que recomendam. Como se o fato de beber determinado iogurte, ou vestir tal marca de equipamento esportivo nos transformasse um pouco em semi-deuses.

Acho que muito do encanto da Olimpíada está nisso. Em vermos em ação atletas como Michael Phelps, que parece um degrau acima do patamar possível da condição humana – pelo menos dentro de uma piscina.

Mas acho que também nos apaixonamos secretamente pelo lado dramático do esporte. E esse lado se revela bruscamente quando aqueles que não podem falhar…falham, e o fazem lamentavelmente, como aconteceu com Diego Hipólito e Daiane dos Santos. Outro dia me comovi com uma chinesinha da ginástica, que errou um reles movimento e despencou de favorita ao ouro para a 7ª ou 8ª colocação. Ou seja, ao limbo. O mundo da garota havia literalmente caído. Há, nesse tipo de esporte, um limite milimétrico entre a perfeição e o fiasco.

Mas o risco, na verdade, está presente em todas as modalidades esportivas, incluindo a nossa favorita, o futebol. Talvez o momento mais agudo em que essa hora da verdade se manifesta seja na cobrança de pênaltis. Muita gente fala em “loteria dos pênaltis”, mas discordo. Loteria implica acaso, sorte, pura chance, como ganhar um cara ou coroa com uma moeda perfeita – 50 % para cada lado. Nada disso. Pênalti pode ser treinado, tanto pelos cobradores como pelos goleiros. Mas o que talvez defina melhor uma decisão seja o equilíbrio emocional – essa capacidade de manter o desempenho em nível ótimo, mesmo sob forte pressão.

Foi isso, talvez, que derrubou Diego Hipólito, a chinesinha, Daiane e tantos outros. Eles realizam esses movimentos milhares de vezes, à perfeição. Vale apenas aquele feito na prova, diante do público e das câmeras. E, principalmente, diante de si mesmo. Como manter-se impassível nessa hora decisiva? É o que nos perguntamos quando vemos um atleta triunfar, superar seus limites, ou bater um pênalti de cavadinha, displicentemente, jogando numa pelada, como fez Zidane na final da Copa do Mundo. Esse mesmo Zidane que, pouco tempo depois, encerraria sua carreira com a cabeçada no peito de Materazzi. Controlou-se num caso, perdeu a cabeça em outro. Como entender?

O erro dos fortes nos aproxima deles. É quando se tornam humanos. Demasiado humanos, como dizia um filósofo de vastos bigodes.

(Caderno de Esportes, 19/8/08)