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A força das imagens

Luiz Zanin Oricchio

29 Junho 2007 | 16h29

Quem me faz o favor de freqüentar este blog sabe que raramente coloco imagens em meus posts. Não vejo justificativa. Mas, no último, elas eram indispensáveis. Numa delas, várias pessoas transportam um corpo, envolto num pano ensangüentado. No plano de fundo, uma mulher carrega uma criança de colo, com uma chupeta na boca. Serão bandidos perigosos? A criança, se não agora, talvez no futuro pode vir a ser uma aliada do tráfico? Por que nos compadecermos dela? Na outra foto, vemos um grupo de mulheres e seus rostos são a expressão completa do horror. O que vêem? Não sabemos. Mas podemos imaginar. Temos imaginação para isso. Para podermos enxergar também o que não vemos e sentir experiências que não vivemos diretamente. Mas, mais uma vez, por que simpatizarmos com elas, quando não fazem parte da nossa realidade? E, mais, vivem num mundo que parece nos ameaçar o tempo todo, a nós, branquinhos da classe média.

Por associação de idéias, essas fotos, e os fatos reais que documentam, me levaram à canção de Gil & Caetano, feita anos atrás, e que se refere ao secular débito social brasileiro. E como esse débito recai de maneira particular sobre aquela parcela da população que, além de ser pobre, também é negra. Ou mulata, ou parda. Ou seja, não-branca. A canção, se bem a interpreto, expressa a revolta, a impotência e, ao mesmo tempo, a necessidade de repensarmos a estrutura social brasileira, se é que desejamos mesmo construir um dia uma sociedade um pouco melhor que a atual. A não ser que continuemos achando, como Washington Luís, que a questão social seja um caso de polícia.

Com o post, eu esperava, pelo menos, que as pessoas se compadecessem do sofrimento dos outros. E, a partir desse sentimento de compaixão, que é humano, refletissem sobre suas causas e como podemos sair desse impasse. Por outro lado, sou bastante crescidinho, realista e conheço bem um tipo de gente que também freqüenta este blog, como a outros. Por isso, não me espantam certos comentários postados aqui. São de pessoas que não querem mudar absolutamente nada, e mais: têm medo de mudanças, de que isso signifique perder algum tipo de privilégio, como se pudessem mantê-los indefinidamente em sociedade tão fragmentada. Não podem nem ouvir falar em política de cotas (que, concordo, teria de ser bem discutida pois é controversa) pelo simples temor de que “gente do povo”, “de cor”, chegue em maior número às escolas, às universidades, aos postos de trabalho melhores.

Enfim, as imagens podem ter força. Mas há gente que deseja ver e existem os que não querem enxergar nada. Bom sono para eles.

Essas críticas me fortalecem. Se esses caras estivessem de acordo comigo, eu ficaria sinceramente preocupado.