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A esquerda, segundo Bernard-Henri Lévy

Luiz Zanin Oricchio

28 Outubro 2007 | 13h18

Ce Grand Cadavre à la Renverse (Esse Grande Cadáver de Costas) é o título do livro que o filósofo Bernard-Henri Lévy acaba de lançar na França. O (mau) título indica uma tentativa de resposta à pergunta: o que é ser de esquerda hoje em dia, se é que isso ainda faz sentido? A Le Nouvel Observateur dá capa à matéria sobre o livro, traz trechos do volume e entrevista intelectuais e políticos.

Um dos trechos escolhidos é bem interessante. Narra uma conversa telefônica entre Lévy e o então candidato à presidência, Nicolas Sarkozy. Na véspera, André Glucksmann, amigo de Lévy e nouveau philosophe como ele, havia publicado no Le Monde um artigo aderindo à candidatura Sarkozy. Este agora ligava a Lévy, tão íntimo que podia usar o “tu” como forma de tratamento, cobrando adesão semelhante. Resposta de Lévy: “Não posso. Podemos até ser amigos, mas a esquerda é a minha família”. Mas o que significa pertencer a essa família hoje? Essa, a discussão, que repercute nos depoimentos.

Existe alguma convergência entre eles. A maioria dos entrevistados aponta momentos-chave da história francesa recente: Vichy (onde se instalou o governo títere pró-nazista, durante a 2.ª Guerra), a questão colonial e o maio de 1968. Mais longinquamente, um quarto affaire serve de baliza: o caso Dreyfus, sobre o militar injustamente condenado por espionagem, feito prisioneiro na Ilha do Diabo e que suscitou o célebre manifesto de Zola, J’accuse, publicado no jornal L’Aurore. Aliás, Lévy, ou B-H.L., sigla do escritor, usada pela mídia, chama o caso Dreyfus de “cena inaugural de uma guerra civil que dura até hoje”.

Simplificando: de que lado se estava em relação a esses fatos? Ou ainda: de que maneira os vemos, hoje em dia? O posicionamento em relação a eles bastaria para indicar uma posição ideológica mais ou menos clara, uma postura política, uma filosofia de vida? Essa, a questão, com o filósofo buscando parâmetros do passado para pensar o presente.

Não se pode dizer que B-H.L. seja um esquerdista “dur”. Pelo contrário, suas críticas à esquerda não raro lhe valeram qualificativos pouco elogiosos. No próprio livro que está lançando, ele chama no título a esquerda de “cadáver” e diz que já era assim desde a época de Sartre e Paul Nizan (o jovem comunista de Aden, Arábia). A esquerda européia entra em crise a partir de, pelo menos, 1956, com o esmagamento do levante húngaro por Moscou e com a denúncia dos crimes do stalinismo no 20º Congresso do Partido Comunista da URSS.

Lévy não ignora nada disso…e, no entanto, convidado a aderir à candidatura de direita, ele se diz impedido, por uma questão “familiar”. “Sempre votei à esquerda e continuarei a fazê-lo”, diz. E, por quê? Porque, do que se deduz de alguns extratos do texto, para ele, a esquerda, esse “cadáver” insepulto, ainda seria detentora de acervo de qualidades nada negligenciável.

Ele mesmo dá um exemplo candente em termos da realidade francesa: o tratamento dado aos motins da periferia, que Sarkozy definiu como obra da “racaille” (da canalha). B-H.L. lembra a história de Victor Hugo, o iluminista que se revolta contra o incêndio da biblioteca das Tulherias por uma malta de insurgentes. “Como incendiar um livro?”, pergunta o poeta a um deles. E o homem lhe responde: “Eu não sei ler”. Lévy conclui, trazendo essa lição do passado para o presente: “Será que estamos tão certos de que não temos nenhuma responsabilidade nesse desastre social?”. Conclui: fazer-se esse tipo de pergunta é um valor de esquerda.

(Estadão, Cultura, 28/10/07)