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A dor e a alegria *

Luiz Zanin Oricchio

09 Outubro 2012 | 09h43

Amigos, o futebol é esporte coletivo mas, muitas vezes, são as atuações individuais que mais nos chamam a atenção. Este fim de semana foi pródigo na supremacia do indivíduo sobre o conjunto. A começar pelo clássico espanhol, que teve o duelo à parte entre Cristiano Ronaldo e Messi. Imagino que ambos se lixavam para as manifestações separatistas da Catalunha que faziam vibrar as arquibancadas do Camp Nou. Estavam muito mais interessados em sua luta particular para ver quem é o melhor do mundo. E, nessa disputa de egos, empataram, da mesma forma como o jogo empatou. Dois gols para cada lado, duas atuações brilhantes. O lucro foi do público.

 

Entre nós, houve a atuação emocionante de Ronaldinho no sábado. Iluminado, ele fez três gols, construiu belas jogadas, dominou o jogo. Verdade, foi contra o Figueirense, uma das apostas mais seguras ao rebaixamento. Mesmo assim, houve quem dissesse que Ronaldinho não jogava desse jeito desde 2006, quando era o melhor do mundo, antes de naufragar naquela Copa em que o Brasil era tido como favorito. A bem da justiça, naquela Copa o Gaúcho não foi náufrago solitário. A equipe toda foi ao fundo, do roupeiro ao presidente, como um lamentável Titanic.

Voltemos ao presente: Ronaldinho foi saudado como craque redivivo e não faltaram comentários do tipo “Ah, se ele jogasse sempre assim…” Bem, ninguém joga sempre assim. O mínimo que se pode exigir de um craque é certa regularidade. Mas, mesmo essa qualidade da constância o Ronaldinho vem mantendo em sua fase atleticana. Para quem saiu do Flamengo com o rótulo de “ex-jogador em atividade”, a volta por cima é significativa. Ele tem sido decisivo para o time mineiro em suas pretensões a um título que não vê desde 1971.

Não que já não tenhamos visto atuações antológicas do Ronaldinho no Brasil. Lembram daquele mágico Flamengo 5 x 4 Santos na Vila Belmiro, no qual ele ofuscou até mesmo Neymar? Mas este jogo no Independência parecia especial. As câmeras mostraram como ele chorou após marcar o seu primeiro gol, aquele golaço improvável, por cobertura. Por que chorava? Descobriu-se que seu padrasto havia falecido na véspera. A própria mãe do craque parece que está muito doente. Com essa carga sobre os ombros, Ronaldinho tomou-se de emoção e devolveu em futebol a dor que vida lhe causava. Ele, sempre tão lembrado pela vocação boêmia, era turbinado em campo pelo mais elementar sentimento humano – a revolta diante do destino, a angústia da mortalidade, da nossa condição plebeia e perecível. Foi, talvez, esse sentimento confuso da finitude que forneceu ao craque as armas para uma atuação inesquecível.

Que paradoxo, não é verdade? Quando sentimos a morte de perto, na perda de um ente querido, mais vontade temos de nos afirmarmos como vida. O luto do Gaúcho, naquele sábado, terminou numa explosão de alegria da torcida. O futebol só não suporta é a indiferença.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão