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A comoção com Patativa do Assaré

Luiz Zanin Oricchio

05 Junho 2007 | 22h54

FORTALEZA – O filme que arrebentou a boca do balão, até agora, foi Patativa do Assaré – Ave, Poesia, de Rosemberg Cariry. Acompanhado por um Cine São Luís lotado, foi várias vezes aplaudido em cena aberta, em especial quando surgiam as imagens do velho Patativa, declamando seus poemas (de fundo social, muitos deles). Ao final, o público aplaudiu de pé. Era o que faltava para o festival pegar no breu.

Rosemberg Cariry trabalha com todos os materiais disponíveis. Trechos de super-8, 16 mm, 35 mm, passando pelo vídeo. Sem preconceitos. Nas imagens se registram as várias etapas da trajetória do poeta e cantador sertanejo. Outras vezes, as palavras de Patativa são cobertas por cenas da história política recente do Brasil – da ditadura militar à redemocratização, com a passagem de Collor, seguido de Itamar e Fernando Henrique Cardoso. Também se utiliza, com inspiração, de material cinematográfico tirado de filmes como Aruanda, de Linduarte Noronha, País de São Saruê, de Vladimir Carvalho, Viramundo, de Geraldo Sarno, entre outros.

A idéia é não apenas ressaltar o aspecto engajado da poética de Patativa, como destacar que as lutas sociais não avançaram um milímetro no sentido de propiciar melhorias ao povo mais carente do País. Povo, bom lembrar, do qual Patativa fez parte, como filho de uma grande e pobre família do Nordeste cearense.

O filme começa com cenas do enterro de Antonio Gonçalves da Silva, que depois passou a se chamar Patativa do Assaré. (Viveu de 1909 a 2002. Anos bem vividos). O recurso das imagens de velório lembra o procedimento de Glauber em Di Cavalcanti, o até hoje censurado documentário sobre o pintor. Por sorte, esse caminho é logo abandonado pelo mais contido Cariry, porque nada pior do que a tentativa de mimetizar Glauber, que era inimitável.

As imagens concentram-se então em Patativa, em pleno ato poético, em cenas políticas brasileiras, ou excertos de filmes que ilustram a miséria a que se referem os versos.

Essas escolhas, como se vê, ressaltam uma leitura de esquerda da trajetória do personagem. É uma opção do realizador e não falseia a história de Patativa, que sempre protestou contra a miséria do seu povo e, a certa altura, declara ter lido Marx e Lênin. Fez também versos em prol da reforma agrária e participou do movimento pela anistia, sendo homenageado pela SBPC no movimentado ano de 1979. Sem ser piegas, o cineasta aborda também assuntos dolorosos. O poeta perdeu uma vista na infância, em decorrência de um sarampo mal curado. Na velhice foi ficando progressivamente cego, até deixar de enxergar, de todo. Foi atropelado em Fortaleza, ficou 11 meses internado e, a partir de então, teve dificuldades para caminhar.

Um ponto discutível do filme é a presença de especialistas depondo sobre a obra de um poeta que, na verdade, fala por si mesma. Dá a impressão de que Patativa foi grande porque reconhecido na França e traduzido em outras línguas. Era grande, e ponto. Basta ler ou ouvir seus versos, em especial ditos por ele mesmo, na voz inimitável e que virou sua marca registrada.

Nada disso, porém, esconde a emoção ou tira interesse de um filme totalmente amparado na força de um personagem excepcional deste País. Sei bem que existem sabichões urbanos que desprezam esse gênero de poeta e esse tipo de manifestação artística. Não sabem o mal que o preconceito lhes faz.