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A ciência da bola *

Luiz Zanin Oricchio

16 Outubro 2012 | 15h41

Diz um instituto de matemática de futebol que o Palmeiras tem 93,6% de risco de ser rebaixado. Bom, depois da derrota para o Náutico, e vendo como está jogando, me parece mesmo que o Palestra está no bico do corvo. Mas 93,6% de risco de cair? Como chegam a esse número, e com essa precisão? É o que mais me espanta nesse pessoal que tenta fazer da chamada caixinha de surpresas uma ciência exata, ou, pelo menos, estatística. Chute com ar de ciência exata, como se diria nos botequins da vida.

Mais perto da verdade (essa palavra…) me parece o Abel, com sua sabedoria prática de boleiro. Ao comentar a sofrida vitória do Fluminense, pontificou: “Dizem que meu time é cirúrgico. Mas ninguém aqui é formado em medicina”, acrescentou, com sorriso matreiro.

E explicou: “Vejam o número de oportunidades criadas. Quando a bola entra, dizem que o time é cirúrgico”. É isso, não há cirurgia nenhuma; tem é uma equipe bem estruturada, que cria muitas oportunidades e, por isso, converte. Se algum time poderia se queixar de ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica, e sem anestesia, seria a Ponte, que teve contra si o pênalti mal marcado e uma falta invertida – lances que originaram os dois gols do Fluminense. A Ponte foi operada, conforme o jargão.

O fato é que futebol não se acomoda bem a quantificações. Mesmo porque, entre a vitória e a derrota se incorporam fatores avessos aos números, que têm mais a ver com a especulação filosófica do que com a ciência exata. Por isso, não adianta os “especialistas” virem me dizer que o Fluminense tem 95% de chance de ser campeão. Para mim, essa afirmação tem menos valor do que a do bebum em fim de domingo quando afirma que o Flu está com a mão na taça, ou só perde o campeonato para si mesmo.

Por exemplo, entre esses fatores não contabilizáveis entram estes: e se os times não fossem atrapalhados pelas datas Fifa, como eles estariam? Se Barcos tivesse jogado pelo Palmeiras, ou Dedé pelo Vasco, os resultados seriam os mesmos? Se a CBF tivesse emprestado Neymar ao Santos com mais frequência será que a posição do time da Vila na tabela não seria diferente? Se Mano fosse com a cara do Fred e o convocasse, como deveria ter feito, o Flu estaria em posição tão privilegiada, com 9 pontos de vantagem sobre o 2.º colocado?

Como contabilizar essas hipóteses e tantas outras mais? Impossível.

Isso para não falar dos erros de arbitragem, que se sucedem a cada rodada. Erros toscos, primários, não aqueles que se precisa olhar 20 vezes no tira-teima para chegar a alguma conclusão. Como quantificar o impacto da incompetência dos juízes sobre a tabela do campeonato? Eis aí um desafio e tanto para a turma da matemática.

Conclusão: para o Palmeiras se livrar, basta fazer uma reta final como a do Fluminense em 2009, desmentindo todos os institutos de pesquisa que o davam como rebaixado. E, para o Fluminense perder o título, é só jogar como o Palmeiras tem jogado. Fácil, não?

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadao