81/2, o cinema como prática de liberdade
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81/2, o cinema como prática de liberdade

Volta à tela grande, em copia recuperada, a obra-prima de Federico Fellini, um dos raros exemplos de cinema de fato libertário

Luiz Zanin Oricchio

10 Janeiro 2016 | 11h33

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Assisti-lo, em alta definição, com imagem e som perfeitos, é constatar que, meio século passado, 8 ½ não perdeu nada do seu frescor. Está intacto, talvez até melhor do que quando foi lançado. Há filmes que até melhoram com o tempo, como os grandes vinhos, enquanto outros, brilhantes em seu nascedouro, viram vinagre após dois anos. 8 ½ é um gran cru, que fica cada vez melhor, sempre que revisto.

E por muitos motivos, um deles, em especial. Ao contrário de tantas obras de tese, que envelhecem mal, 8 ½ conserva-se jovem exatamente por isso – não tem qualquer grande teoria ou causa a defender. A não ser um formidável e imaginário conforto final, como se verá adiante. Mas é um filme que, nota-se, apesar de muito pensado, foi se fazendo à medida do seu progresso, como conta a sua própria trama, aliás. Só que, ao contrário do filme dentro do filme, que termina em fiasco, 8 ½ fecha-se de forma magnífica.

De certa forma, é o paradigma da reflexão sobre a crise criativa, de tal forma que se tornou quase uma obsessão de todo cineasta autoral rodar o “seu” 8 ½, como François Truffaut (A Noite Americana, 1973) ou Woody Allen (Memórias, 1980).

Qual a origem desse projeto? É discutível se Fellini, ele próprio, se encontrava na tal crise criativa ao fazer 8 ½. Vamos admitir que sim ao menos como hipótese de trabalho. Aos 43 anos, era já um cineasta completamente consagrado, em seu país e no exterior. Assinara algumas obras-primas como A Estrada da Vida (1954) e A Doce Vida (1960). Sem nunca deixar de ser muito pessoal, seus personagens pareciam ainda saídos do neorrealismo como o jovem casal de Abismo de um Sonho (1952), os amigos provincianos de Os Boas-Vidas (1953), os vigaristas de A Trapaça (1955). Fellini havia sido assistente de Roberto Rossellini. Mas se o primeiro impulso é neorrealista, ele convive com o veio autobiográfico. Moraldo, de Os Boas-Vidas, é o jovem que consegue sair da província e tentar a vida em Roma. É o próprio Fellini, que deixa Rimini e exerce várias profissões na capital. Entre elas, a de jornalista, como Marcello Rubini, personagem de Marcello Mastroianni em A Doce Vida. Será por fim o cineasta em crise, Guido Anselmi, também Mastroianni.

Mas se 8 ½ é crise de alguém que entra na meia idade com tudo já conquistado, então é a crise mais criativa que já se viu. Fellini a exorciza afundando-se completamente no que seria essa paradoxal impotência criativa. Guido tenta fazer o seu filme, é assediado por atores e atrizes, pelo pessoal técnico da produção, por sua amante (Sandra Milo), por sua mulher (Anouk Aimée), pelo produtor, por críticos impertinentes. Ao tentar processar tantos contrários, Guido evoca cenas de sua infância. Sonha. E os sonhos se limitam com a realidade por uma parede fina, talvez invisível.

Em outras palavras, em 8 ½ Fellini liberta suas fantasias, temores, dores e desejos, e vai trabalhando em sua forma à medida em que o filme progride.

Sente-se esse frescor da criação, que hesita a cada passo, à beira do abismo. Ou da paralisia. Lina Wertmuller, assistente de direção de 81/2, conta como Fellini alterava o roteiro e os diálogos da noite para o dia, sem cessar. Os atores nunca sabiam para onde a história se encaminhava e talvez nem o diretor o soubesse. Criava, no dia a dia, no calor da hora. E com uma inspiração visual espetacular, em diálogo preciso com a trilha musical de Nino Rota. Era uma colaboração intensa. Fellini explica a Rota que durante as filmagens usara marchinhas de circo para certas cenas, mas que desejava algo mais – músicas que fossem como de um circo imaginário, um circo fantástico e irrealista. Um circo transcendental.

A vida vista pelo prisma do picadeiro místico é o que se vê – e se ouve – na ciranda de todos os personagens, em torno dos cenários do filme jamais feito por Guido Anselmi. Como se, no plano imaginário, todos os contrários pudessem se dar as mãos e dançar juntos – da prostituta Saraghina, aos padres repressores que fazem a lembrança da infância, do cardeal ao produtor, da mulher à amante. Todos, enfim, reunidos no imaginário do artista, e tantas demandas opostas, que antes eram o inferno, agora era o seu paraíso particular. Pelo menos por alguns instantes.

Talvez seja uma das sequências mais tocantes de toda a história do cinema e simplesmente porque coloca em imagens o desejo humano, e portanto impossível na vida real, de sintetizar os antagonismos e somá-los ao invés de escolher um e perder outro. Se havia crise, então 81/2 teve ótimo poder curativo. Abriu para Fellini, as portas para uma segunda e extraordinária fase, em que todo o memorialismo e o mundo da fantasia tornaram-se possíveis em obras como Julieta dos Espíritos, Amarcord, La Nave Va, Roma, Satyricon.

Arte é liberdade, dizem todos. Mas existem (raras) obras que são práticas de liberdade em sua forma mesma. Liberam nossa mente e nossos sentimentos. 81/2 é o protótipo desse tipo de obra libertária, em cinema. O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar é outra, no âmbito da literatura. Por acaso (mas seria mesmo?) ambas completaram 50 anos em 2013.

 

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