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500 Almas evoca o mistério dos índios guatós

Luiz Zanin Oricchio

30 Junho 2007 | 16h59

A peça Controvérsia em Valladolid, de Jean Claude Carrière, evoca uma interessante (e comovente) passagem histórica: a defesa, por parte do religioso Bartolomé de las Casas, dos indígenas que surgiram ao mundo ‘civilizado’ como o grande enigma da descoberta da América. Aqueles seres estranhos,tão parecidos aos europeus e ao mesmo tempo tão diferentes, teriam uma ‘alma’? Em outras palavras, seriam como ‘nós’? Essa discussão ocupa uma pequena, mas significativa parte do belo documentário de Joel Pizzini, 500 Almas, sobre os índios guatós.

Há uma particularidade sobre os guatós. Essa tribo da região mato-grossense era considerada extinta até ser ‘redescoberta’pela missionária italiana Ada Gambarotto. Na verdade, os guatós estavam lá, dispersos, misturados à cultura cabocla, quase invisíveis nesse processo de aculturação. O filme se propõe assim a uma função quase arqueológica, a de reconstruir uma cultura já quase perdida, uma língua já quase aniquilada, mas que subsiste na memória de um, nos lapsos de outro. É um trabalho humanístico, de reconstrução a partir de fragmentos.

E que se exprime na estrutura mesma do filme. Pizzini lembra que a arte dos trançados de bambu ocupa posição importante na cultura guató. Pensou, junto com sua montadora Idê Lacreta, numa ‘montagem em trançado’, em que várias linhas de sentido se entrelaçam, até propor, no final, um significado possível para o filme. Que, no entanto, também vai depender de como o espectador o ‘lê’ ou ‘decodifica’, já que esse desenho estará sempre incompleto, pedindo a participação de quem o vê, ou com ele se emociona.

Assim, há a linha que ouve os índios mas também os observa em tarefas como escamar um peixe ou esculpir uma canoa a partir de um tronco de árvore. Há as entrevistas com a missionária, com o poeta Manoel de Barros, que fala da linguagem guató, mescladas a encenações (com Paulo José interpretando vários papéis). E há uma inusitada ponte construída entre o Pantanal e a Europa, ligando a cultura guató à alemã. Ambas, em sua mitologia, têm a água como elemento fundamental. Daí se justificam as imagens de Siegfried, de Fritz Lang, relembrando o mito germânico do guerreiro que vai fechar o corpo banhando-se numa cachoeira e não percebe que uma folha caiu sobre suas costas. A parte não molhada torna-se o seu ponto vulnerável.

Essa ligação transetnológica é feita com graça e naturalidade. Pertencemos todos a uma grande família simbólica, embora separados por um oceano de água e de possíveis diferenças, inclusive econômicas. É uma forma nada piegas (porque política) de dizer que todos os membros dessa família, mesmo os mais fracos, têm direito à existência.

(Estadão, Caderno 2, 29/6/07)