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Zurlini, para o Marcos V.

Luiz Carlos Merten

10 Março 2009 | 11h42

No post intitulado ‘Mais uma, preciso ver mais uma vez’, sobre ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’, citei Valerio Zurlini e Marcos V. me pede que fale mais sobre o autor de ‘Dois Destinos’ e ‘O Deserto dos Tártaros’. Zurlini morreu em 1982, aos 56 anos, de uma crise de gastroenterite. Sua obra é relativamente pequena, pouco mais de uma dezena de títulos, incluindo curtas e o longa ‘História de Um Adultério’, que ele concluiu por causa da morte do diretor Antonio Pietrangeli, em plena filmagem. Zurlini deve sua fama – e ele é um dos grandes do cinema – basicamente a uma curta seleção de filmes que vai de ‘Verão Violento’ a ‘O Deserto dos Tártaros’, o último que realizou, em 1976. ‘A Moça com a Valise’, ‘Dois Destinos’, ‘Le Soldatesse’, ‘Sentado à Sua Direita’, ‘A Primeira Noite de Tranquilidade’, a isso se resume sua obra. Tenho de admitir que não conheço Zurlini tanto quanto gostaria. Nunca vi ‘As Soldadas’, que ele fez com Anna Karina, Lea Massari e, se não me engano, Jacqueline Sassard, com quem era casado, nem ‘O Deserto dos Tártaros’ – esse eu vi parte, nunca completei uma visão integral do filme. Pois os dois vão sair agora em DVD da Versátil, com ‘Sentado à Sua Direita’, completando os lançamentos que a distribuidora já fez da obra do diretor. Falta justamente ‘Cronaca Familiare’, lançado no Brasil como ‘Dois Destinos’, mas até onde sei a Versátil está negociando para integrar aquela obra-prima à sua coleção. ‘Sentado’ e ‘O Deserto’ saem acho que em abril. Ao contrário de outros autores de sua geração, Zurlini não veio do neo-realismo, embora não tenha sido imune à influência da escola que floresceu no cinema italiano, após a 2ª Guerra, em sua estreia – ‘Quando o Amor É Mentira’, sua primeira adaptação de Vasco Pratolini, o autor de ‘Cronaca’. No original, o filme chama-se ‘Le Ragazze di San Freddiano’ e já exibe o tipo de intimismo temperado de crítica social que será a marca do diretor, em sua grande fase. Amo ‘Verão Violento’, que tem duas cenas antológicas, que fazem parte do meu imaginário e eu até começo a duvidar que elas estejam mesmo no filme, podendo ser duas projeções minhas, sempre que me lembro daquela obra-prima de 1959. Uma delas é justamente quando Eleonora Rossi Drago, grande atriz italiana da época – fez também ‘As Amigas’, de Michelangelo Antonioni, e ‘Aquele Caso Maldito’, de Pietro Germi’ –, dança ‘Temptation’ com o jovem Jean-Louis Trintignant e ao fundo ouvem-se as explosões da guerra. A outra é quando Eleonora, cujo comportamento se tornou escandaloso, é interpelada pela mãe, Lilla Brignone, atriz também de Antonioni (‘O Eclipse’). A mãe faz uma observação dura sobre a conduta da filha, Eleonora retruca que é uma senhora e exige respeito e a mãe a fulmina – ‘Pois então comporte-se como uma senhora’. Gosto, mas um pouco menos de ‘A Moça com a Valise’ – apesar de Claudia Cardinale, no auge –, e sou louco por ‘Dois Destinos’. Lembro-me que o filme teve uma sessão mais ou menos recente no Cineclube do Unibanco, meio-dia de sábado. Era na época de ‘Salmo 91’, peça de meu amigo Dib Carneiro, dirigida por Gabriel Vilela. Convenci o Pachoal da Conceição que ele devia ver o Zurlini. Éramos poucos, na sala, e no final o Pachoal, aos prantos, me agradeceu por um dos mais belos filmes de sua vida. Dois irmãos, um débil, outro forte, Jacques Perrin e Marcello Mastroianni. Entre eles, a velha avó, interpretada por Sylvie. A cena em que ela volta para o asilo, após o passeio de domingo com os netos e atravessa aquela rua para morrer – a última vez que os vê –, me deixa engasgado agora, só de me lembrar. Nunca gostei muito de ‘Sentado à Minha Direita’, paráfrase bíblica ambientada durante as guerras coloniais na África, com o ator fordiano Woody Strode na pele de um Cristo moderno. Morro de vontade de rever ‘Sedutto alla Sua Destra’ – e se o filme for bom e eu não o tiver entendido, na época? Em compensação, com os defeitos que possa ter, ‘A Primeira Noite de Tranquilidade’ (La Prima Notte di Quette) é o ‘meu’ terceiro Zurlini, com ‘Verão Violento’ e ‘Dois Destinos’. Alain Delon é magnífico como o professor que vive amargurado em Rimini, uma cidade invernal. Zurlini tinha o projeto de um filme imenso, ‘I Dominici’, sobre a decadência de uma família que foi importante durante o colonialismo. As colônias foram-se indo, o poder e o dinheiro também, e restou esse professor amarrotado, com seu sobretudo amarelo, numa relação destrutiva com a bela estudante (Sonia Petrova). Problemas de produção fizeram com que o grande diretor centrasse sua nova ‘crônica familiar’ num só personagem, um dos maiores da carreira de Delon, com ‘Rocco’ e ‘O Samurai’, mostrando o ator extraordinário que ele foi (além de um dos homens mais belos do cinema). Zurlini estudou direito e chegou ao cinema pela via do teatro. Ele foi um grande solitário no cinema italiano, com uma preferência por esses personagens complexos, destrutivos, que parecem carregar em si todo o desespero e amargura do mundo. Mas há neles uma ‘rabbia’, raiva, muito particular. Não consigo ficar de cabeça fria falando de Zurlini. Há sempre uma emoção radical, visceral que emana do cinema dele. E ‘Dois Destinos’, como ‘Rocco e Seus Irmãos’, é outro daqueles filmes que eu vivo buscando em outros. Um dos meus fantasmas, talvez.