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Luiz Carlos Merten

08 Junho 2009 | 09h02

Edward Albee diz que escreve peças para tentar entender o que quer dizer. Muitos autores repetem isso, de dramaturgos a cineastas. Se eu soubesse, não me daria o trabalho, pensa a maioria deles, pelo menos os que já entrevistei. É bem o oposto de Alfred Hitchcock, que disse a Claude Chabrol que filmar era passar o filme – o roteiro – pela câmera. Por que tergiverso? Fui ontem ver ‘A Cabra, ou Quem Matou Sílvia?’, de Edward Albee, na montagem de Jô Soares, com José Wilker e Denise Del Vecchio, no Teatro Renaissance. A localização é importante porque a platéia do Renaissance, não o espaço físico, mas o público, talvez seja a pior da cidade. É o teatro ‘burguês’ por excelência de São Paulo, o mais caro, e não digo i8sso para ofender. (Quem sou eu?) Tive um choque ontem vendo ‘A Cabra’. Fiquei impressionadíssimo com o texto de Albee, com a sofisticação da direção de Jô Soares e, principalmente, com as interpretações. Por um tolo preconceito, não imaginava que Wilker e Denise pudessem dar conta da complexidade do autor. Tenho para mim, pode ser um equívoco, que Cacá Diegues preparou José Wilker para Albee e, se ele não tivesse feito ‘O Maior Amor do Mundo’, talvez não estivesse pronto para a entrega em ‘A Cabra’. Denise me deixou siderado. Nossas divas que me perdoem – Fernanda, Marília. Denise Del Vecchio subiu ao (meu) panteão. Tendo gostado, como gostei, do texto, do espetáculo, não o creio sem defeitos. Jô Soares é, na essência, um humorista. Existem cacos no texto, que provocam riso na platéia. Albee pode ter um humor cortante e feeroz – vide ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, mas não creio que aquilo seja coisa dele. É que a peça é muito forte, e Jô e seu elenco talvez tenham resolvido ‘destensionar’ (pode ser). A platéia, de qualquer maneira, não tem condições de seguir a complexidade do texto e transforma a indagação metafísica de Albee numa comédia de absurdo. Como – um sujeito que trepa com uma cabra? Parece piada, mas não é.
Estou abrindo um parágrafo. Existem vestígios – ecos? – de Woody Allen neste texto. Lembram-se de ‘Tudo o Que Você Sempre Quis Saber sobre Sexo?’, Gene Wilder largando tudo por amor à ovelha e terminando o episódio na sarjeta… Numa cena, querendo manifestar sua indignação pelo que lhe aprontou o companheiro, Denise Del Veccio diz que nunca ouviu nada parecido, mas sabe de homens que se vestem, com as roupas das mulheres, de mulheres que abandonam os maridos por amigas etc. São os demais episódios, alguns pelo menos, de ‘Tudo o Que Você Sempre Quis Saber…?’ O caso, em ‘A Cabra’, não é de simples zoofilia. A peça reabre a vertente da autópsia de um casamento de ‘Virginia Woolf’. Quando ‘Martin’, isto é, Wilker, diz que ama Denise, está sendo sincero. Mas por que a cabra, então? Por causa do alumbramento. Quando ele tenta explicar o que sentiu olhando a cabra, e sendo olhado por ela, aquilo evoca Tennessee Williams, quando Sebastian Venable, em ‘De Repente no Último Verão’, tem a visão de Deus na praia (embora sua história seja, aparentemente, a de uma bicha louca que caça garotinhos na praia e termina morto por eles), ou então Ahab na sua louca perseguição à Baleia que encarna o mistério de Deus. Dois momentos me tocaram fundo. Quando Wilker derruba Gustavo Machado, o filho gay, e quando ele se aninha no colo de Denise, que tenta rejeitá-lo, mas a fragilidade do companheiro é tão grande que ela termina por fazer o gesto de acolhê-lo. Aquilo me lembrou Losey, ‘Entrevista com a Morte’ (Blind Date). Micheline Presle traindo-se, na trama de assassinato, ao acolher Hardy Krueger, que afirmava não conhecer, quando ele, desmontado pela traição, desaba aos seus pés. Existem dois grandes temas em ‘A Cabra’. Um, é a hipocrisia social, a fala do amigo, o que não se vê nem se sabe é permitido ou, pelo menos, tolerável. O outro é o berro de Martin/Wilker, ‘Estou só!’ O desfecho seco, sem solução aparente – qualquer solução seria falsa: moralista, regeneradora etc. –, o elenco que faz uma reverência e sai de cena, cortando o elo umbilical que tende a se estabelecer na catarse dos aplausos. Albee talvez não saiba a peça que escreveu, eu estou tentando decifrá-la, mas o excepcional elenco de ‘A Cabra’ sabe, com certeza.