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Zonda!

Luiz Carlos Merten

08 Abril 2017 | 09h49

Guilherme Sobota, repórter do Caderno 2, fica surpreso ao me ouvir dizer que não tenho alma de roqueiro. Como assim? Era jovem quando tudo estava acontecendo, nos anos 1960 e 70. Os Beatles, os Rolling Stones, Woodstock. Aprendi a amar os Beatles através de Richard Lester, os Rolling Stones, através de Edward Maysles e Jean-Luc Godard. Mas o Brasil vivia sob uma ditadura, o pau comia em todo o Cone Sul e eu comecei a ir com a Doris, minha ex-mulher e mãe da Lúcia, para o Uruguai e a Argentina. Já disse mil vezes que as cinematecas argentina e uruguaia foram fundamentais na minha formação de cinéfilo. Só cheguei em São Paulo no fim dos anos 1980, já com 43 anos, e foi aí que visitei pela primeira vez a Cinemateca Brasileira. Já tinha percorrido a América Latina, ido a passeata dos Montoneros em Buenos Aires – Si Evita viviera, seria Montonera -, assistido a filmes militantes em bibocas de Montevidéu. Amei – sempre! – Alfredo Zitarrossa mais que Roberto Carlos e tinha em casa todos os discos que podia carregar na bagagem de Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Violeta Parra, Ariel Ramirez, Victor Jara. Minhas ‘bandas’ eram de poncho e conga, Chalchaleros, Fronterizos e, acima de todos, Quilapayun. A cantata de Santa Maria Iquique, sobre a célebre matança de trabalhadores do salitre em 1907, foi a minha escadaria de Odessa – Los gritos de los hornos! O máster daquela gravação foi destruído pelos asseclas de Pinochet e só em 1978 a cantata foi recuperada e regravada. Meninos, eu vi, ouvi! Tive o privilégio de estar em plateias para ouvir Mercedes e Amelita Baltar cantando Alfonsina y el Mar. E, em janeiro deste ano, Dib e eu procuramos a estátua de Alfonsina na orla de Mar del Plata, no ponto exato de que, conta a lenda, ela entrou as águas e partiu – con su soledad. E por isso me emocionei tanto com o novo musical de Carlos Saura, Argentina. Depois de Tango, de 1998, Saura investiga outras correntes da musicalidade argentina. O folclore! Argentina chama-se, no original, Zonda, como o vento que sopra do Pacífico, atravessa a cordilheira e sob o efeito de sei lá que frentes frias ou quentes vai morrer no altiplano argentino, no Noroeste. Viajamos muito por essas regiões. De Mendoza até Tucuman, Salta, mas nunca fomos, Doris e eu, a Jujuy. Guardo na lembrança uma noite dos 70 – o cabildo de Salta sob uma lua cheia. Por que o vento, para dar título a Argentina? Porque o vento sopra sobre a terra como os arrieros a percorrem, sem criar raízes. A explicação de Jorge Martinez de Hoyos em Sete Homens e Um Destino, a versão de John Sturges, de 1960. Os camponeses são a terra e os pistoleiros, o vento que sopra. Argentina viaja nos ritmos e tradições – instrumentais, cantadas, dançadas – do folclore argentino. Zamba, zamba alegre, chacarera, chacarita, chamame. Ver o filme foi como viajar ao meu passado, à minha juventude. Tem uma cena, um canto à lua tucumana, de arrepiar. ‘Yo no le canto a la luna/Porque alumbra nada más/Le canto porque ella sabe
De mi largo caminar…’ E o filme inclui homenagens a Mercedes Sosa, La Negra, e a Atahualpa Yupanqui. Uma plateia de crianças assiste a Mercedes cantar num telão. Todo Cambia, e os jovens são a mudança. Tudo muda, menos o amor dela por seu povo. E Atahualpa numa conversa irada com Deus, a quem acusa de comer na mesa dos ricos. Tudo pelo social – ah que j’ai été jeune un jour. Noi che c’ eravamo tanti amati. Nós que nos amávamos tanto – que amávamos tanto a revolução?