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Luiz Carlos Merten

01 Junho 2007 | 16h20

Gostei muito da estrutura narrativa de Zodíaco. O filme tem momentos de suspense e pelo menos uma cena assustadora – quando Jake Gyllenhaal visita o porão da casa do projecionista e pensa ter chegado ao fundo de sua pesquisa, ao identificar, num velho filme do conde Zarkoff, caçador de homens, o símbolo utilizado pelo assassino. Mas, de maneira geral, Zodíaco é muito mais um docudrama que um thriller convencional. Lembra os filmes de Richard Fleischer sobre assassinos em série, por volta de 1970 – O Homem Que Odiava as Mulheres, sobre o estrangulador de Boston, e O Estrangulador de Rillington Place. Tudo é muito documentado e a referência a horários e lugares não parece só uma firula de direção. O assassino do Zodíaco existiu realmente e manteve a cidade de São Francisco aterrorizada durante anos. David Fincher era um jovem estudante, na época, e se lembra do clima de paranóia. O Zodíaco ameaçava explodir ônibus com escolares. No calor da hora, Don Siegel fez o primeiro filme sobre o personagem, mas ele não se chamava Zodíaco e sim, Scorpio. O filme era Perseguidor Implacável, o primeiro Dirty Harry, no qual Clint Eastwood empunhava a Magum 44 do herói mais discutido de sua carreira. A crítica de esquerda dizia que ele era fascista. As feministas, que era um porco chauvinista. Era mesmo? David Fincher incorpora cenas de Perseguidor Implacável na cena do encontro da polícia com o prefeito, mas não é uma homenagem ao velho Siegel. Em Seven, o diretor foi fundo na investigação da cabeça do serial killer interpretado por James Spacey. Caçado por Brad Pitt e Morgan Freeman, sua obra-prima consiste em fazer com que o agente Pitt renegue os próprios princípios éticos e cometa um assassino a sangre frio, no desfecho. Seven propõe um hui clos completo. Zodíaco até certo ponto repete o princípio. Até certo ponto – já que o assassino permanece um enigma sem solução, o que importa aqui não é tanto o seu comportamento obsessivo, mas a obsessão que ele desperta em seus caçadores. Todos destróem suas vidas afetivas e familiares. Não há catarse do público e a questão torna-se singularmente complexa. Quando o assassino do Zodíaco ameaça explodir ônibus escolares, ele é um terrorista. Quando Edward Norton e Helena Bonham Carter dinamitam o prédio, na última cena de O Clube da Luta, também são terroristas. Quando Brad Pitt mata James Spacey, em Seven, ele ultrapassa o limite da ética. Quando Jake Gyllenhaal olha no olho do assassino, mas se mantém dentro da ética, em Zodíaco, David Fincher está fazendo, queira ou não, um comentário que é uma crítica ao comportamento social e institucional nos EUA de hoje, sob George W. Bush. Ainda não revi Zodíaco – não consegui nem ver Piratas do Caribe 3, desde que cheguei (ontem), nem Alpha Dogs, sobre o qual tenho ouvido, no jornal, os maiores elogios. Em Cannes, me pareceu forte, mas, tendo sido um dos primeiros filmes do concurso, seu impacto foi-se diluindo à medida que via outras coisas – o filme romeno Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias, o turco/alemão The Edge of Heaven. Estou louco para rever Zodíaco. É muito bom, mas será muito mais que isso? Vocês também opinem, por favor.