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Luiz Carlos Merten

17 Maio 2007 | 12h26

CANNES – Fiquei muito impressionado com Zodiac, o novo thriller de David Fincher. Confesso que ainda não sei se gostei tanto assim, mas o mal-estar que o filme me causou foi uma coisa muito visceral. Na coletiva, Fincher disse que, depois de Seven – Os Sete Crimes Capitais, havia pedido a seu agente que não lhe encaminhasse nenhum roteiro sobre serial killers. Não queria ficar rotulado, mas o cara insistiu que ele lesse o de Zodiac, sobre o assassino em série que aterrizou San Francisco por volta de 1970 (e inspirou o primeiro Dirty Harry, de Don Siegel, com Clint Eastwood – chamou-se, no Brasil, Perseguidor Implacável). O roteirista James Vanderbilt disse que se interessou pelos livros de Robert Graysmith – Zodiac e Zodiac Unmasked – porque mostram a caçada de um serial killer por um cartunista. Com base no material que ele escreveu, David Fincher fez um filme muito complexo. Num certo sentido, é o anti-Seven. E é um filme inconclusivo, porque o caso nunca foi resolvido e o suspeito que Fincher e Vanderbilt apresentam não pôde nem ser indiciado (vejam o filme para saber por que). O mais fascinante, para mim, pelo menos, foi o estilo semidocumentário, distante de suas experimentações formais nos filmes anteriores, que Fincher parece (eu acho) ter absorvido de O Homem Quer Odiava as Mulheres, outro filme de serial killer, de Richard Fleischer, do fim dos anos 60, sobre o estrangulador de Boston. O que mais me tocou, e provocou mal-estar, foi ver todos aqueles caras (policiais e jornalistas) destruindo suas vidas, de tão obcecados que ficaram com o assassino do Zodíaco. É filme para ver muitas vezes. Na saída, conversei rapidamente com um jornalista americano e ele me fez uma sugestão intrigante – citando não me lembro se Vanderbilt ou o próprio Fincher, disse que eles fizeram um retrato do terrorista. Quem é ele, como filmá-lo. Quero rever Zodiac com ênfase nessa idéia que me parece muito ousada, no cinema americano pós-11 de Setembro. O filme antigo de Siegel explorava a paranóia. Este vai além, não sendo despropositado lembrar o desfecho de O Clube da Luta, que terminava com os ataques terroristas de Edward Norton, ao liberar o outro lado de sua personalidade, que era o personagem de Brad Pitt.