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Cultura » Zhang Yimou na cola dos Coen

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Luiz Carlos Merten

14 Fevereiro 2010 | 14h02

BERLIM – Quase cinco da tarde, por aqui. Ainda não almocei, por isso vou ser breve. Assisti ontem à noite ao documentário ‘Exit Through the Gift Shop’, de Banksy. Foi o último filme anunciado da competição e faz sentido, porque o grafiteiro, melhor dizer, o artista de rua, faz questão de preservar sua identidade. Não houve, por isso, coletiva. Numa mensagem gravada e exibida antes da projeção, Banksy – o rosto encoberto, nas sombras; a voz modificada – diz que nunca teve a intenção de virar cineasta. Mas ele virou, e bom. ‘Exit’ é sobre um documentarista francês de Los Angeles que realiza um filme sobre arte de rua, e sobre Banksy. É difícil, senão impossível, separar o que é falso do que é verdadeiro. Banksy fez o seu ‘Verdades e Mentiras’, quase tão bom quanto o de Orson Welles. Não é pouco elogio. Pela manhã, assisti a ‘A Woman, a Gun and a Noodle Shop), de Zhang Yimou. Não sabia, o que talvez alguns de vocês já saibam, que se trata do remake assumido de ‘Simple Blood’, Gosto de Sangue, o primeiro filme dos irmãos Coen. Vocês poderão creditar o que vou dizer agora à minha já reconhecida aversão pelo cinema de Joel e Ethan, mas adorei o filme de Zhang Yimou. Ele fez uma farsa muito divertida, e com um visual deslumbrante (o que no seu caso não surpreende). Zhang Yimou disse que viu ‘Simple Blood’ em Cannes, nos anos 1980. Como assistiu ao filme sem legendas, viajou nas imagens, que o atraíram muito, e construiu a sua versão sobre o que não estava entendendo muito bem. Anos mais tarde, ele viu ‘Simple Blood’ legendado e a sua versão não lhe saiu da cabeça. Ele pediu os direitos aos Coen, eles cederam. Joel e Ethan já vioram o filme e enviaram a Zhang Yimou um e-mail dizendo que gostaram muito e que não acreditavam que fosse possível transportar a história para outra cultura com tanta propriedade. Como vou explicar rapidamente? Há, no cinema dos Coen, uma teatralidade que quase sempre me incomoda. Eles nunca trabalham no plano de uma apreensão direta do real. Trabalham, mesmo quando os subvertem, com gêneros. Essa teatralização tem não raro um exagero que me desagrada, por exemplo, a violência de ‘Onde os Fracos não Tem Vez’ e o personagem – caricato? – de Javier Bardem (sei que todo mundo o ama, mas fazer o quê? Estou manifestando o que sinto). Pois bem. Acho que Zhang Yimou resolve muito bem a transposição e esse nível um pouco over da realidade. Mas isso será uma coisa que vocês vão ter de esperar para ver…