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Cultura » Zhang-ke, Gitai, grandes autores na Mostra

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Luiz Carlos Merten

31 Outubro 2007 | 11h28

Tive ontem um dia muito legal na Mostra, fazendo duas entrevistas à tarde, a primeira com Jia Zhang-ke e a seguinte com Amos Gitai. Conheci Amos aqui em São Paulo, na Mostra, e depois o entrevistei várias vezes em festivais internacionais – Cannes, principalmente, nos anos de ‘Kippur’, ‘Kedma’ e ‘Free Zone’. Conversamos sobre o novo filme dele, ‘A Retirada’, sobre uma questão explosiva na geopolítica do Oriente Médio – a retirada israelense dos territórios ocupados. O filme é interpretado por Juliette Binoche e Jeanne Moreau, que tem só uma cena, mas Amos e ela se entenderam tão bem que ele agora tem um roteiro pronto para fazer um filme inteiro com La Moreau. Na edição de hoje do Caderno 2, Luiz Zanin Oricchio escreve sobre ‘A Retirada’ (ótimo) e eu sobre outro filme israelense, ‘Beaufort’, de Joseph Cedar, que ganhou o Urso de Prata de direção em Berlim (também ótimo). Adorei o filme do Cedar, que mostra um grupo de soldados israelenses sob bombardeio cerrado numa fortaleza no Líbano que não tem valor estratégico nenhum, mas eles têm de ficar lá e arriscar a vida só para que a bandeira de Israel tremule neste outro território ocupado. Amos Gitai elogiou Cedar. Concordou comigo que o filme é muito bom, mas acha que Cedar terá de resistrir ao canto das sereias. Uma maneira de destruir osd novos talentos que incomodam – por seus quastionamentos – em Israel é cooptá-los com promessas de uma grande carreira. Cedar terá de ter força para se manter independente. Jia Zhang-ke foi maravilhoso. Falou em mandarim, mas tive um intérprete ótimo que facilitou, em vez de complicar – como ocorrera com Hirokazu Kore-eda – a comunicação. Ele me contou muitas coisas interessantes sobre seu cinema e a própria China. A entrevista foi filmada pela Mostra e a encerrei perguntando se o Ocidente tem de ter medo da China, como potência militar e econômica emergente. Ele me disse que espera que não e que filma justamente para mostrar que o chinês comum vive as transformações do país com a mesma perplexidade que nós, que olhamos o processo de foras. Não foi fácil para o país que já tinha milhares de anos de história virar comunista e, agora, passar rapidamente, em questão de décadas, do comunismo para o capitalismo. Tudo é muito vertiginoso e é essa vertigem que alimenta seu cinema.