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Luiz Carlos Merten

15 Agosto 2007 | 10h59

GRAMADO – Zezé Motta protagonizou ontem à noite a mais bela entrega de um Troféu Oscarito na história do Festival de Gramado. Vocês sabem que eu sou passional e isso, para muita gente, soa como exagero e eu confesso que, no início, estava achando a Zezé muito controlada. À tarde, na coletiva, ela disse que tinha tendência a ser dispersiva e Cacá Diegues havia sofrido para fazer com que ela se concentrasse no set de Xica da Silva. Cheguei a pensar – ihhh, Zezé se dispersou. Todo mundo chora, se despedaça ao receber o prêmio e a Zezé estava toda contida. De repente, ele disse uma coisa. Que quando interpreta fica feliz e quando canta fica feliz também. Isso até levou a que um crítico criasse, para ela, a definição de ‘cantriz’. Como estava muito feliz, Zezé cantou. À capela, e não uma música qualquer. Ai, me deu um branco. Como se chama mesmo? Não-sei-o-quê da Criação, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, uma música que, segundo ela, e é verdade, fala do papel do artista mas também do que cada pessoa pode fazer ou representar no mundo, pois cada um de nós pode fazer a diferença. José Wilker, que voltava ao posto de mestre de cerimônias, lembrou o tempo em que Zezé e ele fizeram Xica. Aliás, a homenagem do Canal Brasil a Zezé foi linda. Mostrava a cena da dança no filme de Cacá Diegues e concluía com a boca aberta de Zé Wilker, como a sugerir que aquela foi a reação do Brasil ao descobrir o diamante negro quieb é Zezé. Pode-se falar muito sobre a persona da estrela. Na época, muito mais do que hoje, havia discriminação e preconceito contra intérpretes negros. Ruth de Souza foi pioneira no reconhecimento ao ator negro brasileiro. Grande Otelo era outra coisa, em dupla com Oscarito. Ruth foi, e é, uma grande atriz, mas nunca foi exatamente sexy. Com Zezé, o Brasil descobriu um furacão, prenunciando as deusas sexies que desde então assolaram o audiovisual do País. Entre negras e mulatas temos a Taís, a Camila – e vocês sabem de qual Taís e qual Camila estou falando. Me lembrei agora de uma coisa. Há dois, três anos, Neusa Borges foi premiada pela APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte. Saímos para jantar com ela e a Neusa fez uma observação sobre atores negros no elenco global. Disse que se a negra era pobre a emissora a chamava. Se era remediada, ou rica, ou tinha de ser chique, a escolhida era Zezé. Pensei nisso e pensei mais – Zezé, asté nisso, lutou contra o estereótipo e foi a Caroliona Maria de Jesus de Jefferson De. Zezé criou um site de divulgação do ator negro no Brasil. São tantos os grandes atores afro-brasileiros, definição que a gente não usa só para não ser politicamente correto, como os americanos. Pense em Ruth, em Grande Otelo, em Milton Gonçalves, em Léa Garcia, em Zezé. São tantos, são legiões. A lista chega a Lázaro, nosso poderoso Lázaro Ramos, a Flávio Bauraqui, aos garotos de Cidade de Deus, de De Passagem e Os 12 Trabalhos. Zezé foi um marco nessa lista. Sua imagem como Xica, avançando com a carta de alforria na mão para a igreja cuja porta será fechada na sua cara, em Xica da Silva, faz parte das emoções inesquecíveis do cinema brasileiro. Cacá Diegues escreveu um texto, lido por Zé Wilker, dizendo que ela é a princesa do cinema brasileiro. Paulo Caldas, que a dirigiu em Deserto Feliz, o filme brasileiro exibido após a homenagem a Zezé, corrigiu – disse que ela é rainha. Maravilha!