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Luiz Carlos Merten

07 Agosto 2009 | 14h36

CANCUN – O templo observatorio de Chichen Itzá é dedicado ao deus Kukulkan, da chuva, a quem os maias procuravam satisfazer, inclusive por meio de sacrifícios humanos, porque, sendo agricultores, sua civilizacao dependia muito da fertilidade do solo. Blog é cultura, gente. Talvez voces estranhem agora a confidencia, mas já disse que nao sou muito chegado a mar nem piscina, por mais bela que seja a cor da água da praia aqui em Cancun. Como consequencia, quando nao estava envolvido em alguma atividade, ou festa, estava no quarto, vendo filmes. Ontem ä tarde, por exemplo, estava vendo Razao e Sensibilidade, mas tive de interromper o filme de Ang Lee para ir a Chichen Itza. Na volta, dei uma zapeada na TV e estava recomecando Sense and Sensibility. Fiquei até mais de duas da manha, horario local, para ver o filme completo. Engracado – tenho a impressao de que escrevi aquii que nao giostava tanto do filme, ou melhor, gostava, mas havia me encantado mais com Orgulho e Preconceito, que Joe Wright adaptou – também – de Jane Austen. Desta vez, adorei o Razao e Sensibilidade, a sutileza do roteiro (que deu o Oscar para Emma Thompson) e da interpretacao. Nao li o livro, mas quero crer que uma coisa que me tocou muito é de Emma e Ang Lee. Como toda adaptacao de Jane Austen, o filme fala de convencoes sociais. Na Inglaterra pré edwardiana, as mulheres valiam pelo seu dote, mas os homens também eram vítimas dessa estrutura social. Willoughly, espero nestar escrevendo certo, grande amor de Kate Winslet, a abandona porque nao tem um vintém e precisa se casar com a ricaca que lhe oferece o dote de 50 mil libras. Quando Kate, no fim, casa-se com o coronel, Willoughly (ou Willoughby) faz o mesmo caminho que ela e, do alto do morro, assiste ä cerimonia. Ele a amava, por certo, mas nao teve coragem de enfrentar a pobreza por amor. Achei aquilo de uma beleza, e de uma tristeza, que me tocou, mas fica por conta do meu romantismo incurável. Outra coisa. Já disse que nao vejo séries porque nao tenho paciencia de ficar preso ao compromisso de sintonizar no horário. Mas acho que tem mais. Sou meio hóspede na minha casa. Nao almoco nem janto lá, chego de madrugada e, nos fins de semana, passo a maior parte do tempo na rua (e no cinema). Talvez seja revelador, mas me sinto muito ä vontade em hotéis. E neles, uma coisa que faco, é ver muita TV (e séries). Vi o Mental, que nao é o Mentalist, agora de manha acompanhei um episódio inteiro de ER, mas o que me surpreendo e talvez possa ser objeto de uma reflexao, é a quantidade de séries sobre Justica. Advogados, juízes, policiais… Terminava uma e comecava outra, todas colocando pressupostos éticos em debate e, detalhe curioso, todas tratando de personagens ambivalentes (ou reais), obcecados por sexo e com problemas de fidelidade. Me pergunto se isso nao será uma reacao ä era George W. Bush, caracterizada pela manipulacao da opiniao pública, e todo mundo sabia disso, e também marcada pela volta ä hipocrisia sexual, porque a base de sustentacao do ex-presidente, afinal, era a maioria silenciosa (e puritana) do meio Oeste. Essa elefantíase do sexo nao havia antes. Talvez seja heranca do sucesso de Friends e Sex and the City, agora já estou chutando. Sobre Friends, volto a John Cusack. Já que 2012 trata do fim, e do recomeco, do mundo, a pergunta surgiu ao natural. O que ele gosta e o que nao gosta, o que enterraria com esse mundo prestes a explodir (e a ser tragado pelo buraco negro, segundo a profecia de Roland Emmerich)? John Cusack detesta a reality TV, ou seja, os reality shows. Em contrapartida, acha que Friends tem o melhor writing ever da história da televisao. Minha filha adora Friends, ela está sempre cacando o canal que exibe a série pela enésima vez. Minha amiga Elaine Guerini, que está aqui em Cancun, adora – acho que prefere – Seinfeld, sobre o qual me falou muitas vezes. Outros amigos curtem Lost e Brothers and Sisters. Eu fico sempre boiando… Ah é? Sobre séries, nao consigo opinar, mas voces nao se acanhem, por favor. Concordam com o John Cusack? Para concluir, misturei alhos com bugalhos. Jane Austen com séries de TV. Parece estapafúrdio, mas nem tanto. Os quiprocós da literatura de Jane Austen, suas tramas, continuam válidos e a minha impressao é que ela, se vivesse hoje, seria roteirista de TV ou cinema…

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