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Luiz Carlos Merten

23 Julho 2010 | 08h27

Cheguei ontem em casa, depois de jantar – ceviche de peixe e camarão, no Suri – com meu amigo Dib Carneiro, dei uma zapeada e estacionei meu carro, perdão, meus olhos e ouvidos no Telecine Cult, que reprisava ‘O Poderoso Chefão’. Peguei o filme na cena em que Robert Duvall toma um trago e Brando, aliás, Don Corleone, chega por trás e pergunta a seu consegliere o que está ocorrendo. Na cena seguinte, Brando vai ao agente funerário, a quem concedeu um favor na abertura do filme, e lhe pede que dê um jeito no cadáver de Sonny (James Caan), ‘porque uma mãe não pode ver seu filho desse jeito’ (ele foi metralhado). Brando, que, em vários momentos de sua carreira levou a emoção, stanislavskianamente, ao limite, aqui é de uma economias que chega a ser pungente. Sua dor é tão genuína que eu choro só de estar me lembrando. Nesta parte do filme, Don Corleone está meio apeado do poder, após o atentado. Ele pede uma reunião com os capos das outras famílias para acabar com a guerra e, na saída, faz uma observação para seu consegliere. Ele cita o nome de Barzini e Robert Duvall acha que Brando/Dom Vito se enganou e queria dizer Tagliatti. Mas não, o Dom, que tudo sabe, viu naquele jogo de xadrez da política do crime quem está por trás dos atentados – contra ele, contra Sonny, contra Michael (Al Pacino) e a mulher deste último morre, na Itália. Deus! Como é bom ‘O Poderoso Chefão’. Não me canso de (re)ver o filme e cada vez é uma descoberta. Lembro-me de que, ao entrevistar Talia Shire, perguntei se o irmão dela, Coppola, conhecia ‘Rocco e Seus Irmãos’. Ela me disse que não tinha condições de responder, mas que Visconti, o pai de ‘Rocco’, sim. Sempre tive para mim que ‘Rocco’, tanto quanto o livro de Mario Puzo e alguns clássicos de gângsteres dos anos 1930, foram as fontes inspiradoras de Coppola. Michael Corleone é um pouco o personagem de Alain Delon – o idealista que se sacrifica pela família e tudo perde, mesmo que o final do filme celebre sua investidura no poder, com aquela porta que se fecha sobre Kay (Diane Keaton), quando começa o cerimonial de beijar a mão de Pacino, como no começo as pessoas beijavam a mão de Brando. E o tema musical – a música é de Nino Rota – é uma variação do tema de ‘Rocco’. Que filme! Deixem-me colocar no plural – que filmes! ‘O Poderoso Chefão’ é uma das mais extraordinárias lições de cinema narrativo que um cinéfilo pode acompanhar. E o tema – a luta pelo poder numa democracia étnica – é daqueles que não se esgotam. É preciso acrescentar ‘O Príncipe’ – Maquiavel – às fontes de Coppola. Não busco ‘O Poderoso Chefão’ na minha devedeteca, mas se pego o filme passando paro tudo. A adesão é sempre imediata. E se pego o 3, a cena do teatro, com a ‘Cavalleria Rustichana’, em que Sofia Coppola vai morrer naquele tiroteio, caio em prostração. A força de tragédia do filme – o Rei Lear de Coppola – me atinge feito um raio