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Cultura » ‘Ythaca’!

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Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2010 | 21h45

TIRADENTES – Passei um dia hoje delicioso, aqui em Tiradentes, pós-mostra. Meu amigo Dib Carneiro estava em Ouro Preto, concluindo sua nova peça, adaptada do romance ‘Crônica da Casa Assassinada’, de Lúcio Cardoso – uma encomenda de Gabriel Villela – e veio ao meu encontro. Fomos a São João del Rei, andamos de maria fumaça e agora, de volta ao hotel – à pousada -, tenho tempo de acrescentar este post. Me coube ontem, em nome do júri da crítica, ler o texto que justificava nossa premiação. Fi-lo, como diria o Jânio, com gosto porque desde a primeira hora não tive dúvidas de que ‘Caminho para Ythaca’ era a coisa mais estimulante que a 13ª Mostra de Cinema de Tiradentes estava me propondo. Ia vendo os demais filmes – ‘Ythaca’ passou no segundo dia – e ficava sempre ruminando a obra de um coletivo cearense, os irmãos Pretti e os primos Parentes, que apresenta quatro amigos que caem na estrada para celebrar sua amizade e purgar a perda de um quinto elemento do grupo. No final da história, que não é uma ‘história’, um poema do poeta grego Constantin Sefardis fala de Ythaca como esse lugar mítico que não interessa muito como objetivo. Mais importante é a estrada, o deslocamento, e o ibjetivo, como metáfora da própria vida, passa a ser prolongar o prazer que a estrada – a existência? – proporciona. Numa cena, o amigo morto reaparece como barbudo, num filme dentro do filme, numa encruzilhada, reproduzindo o discurso famoso de Glauber Rocha em ‘Vento Leste’, de Jean-Luc Godard. A estrada assume ali uma bifurcação. Por esse lado, diz Júlio, o amigo, profético como Glauber, segue o cinema da aventura; do outro, a via do 3° Mundo. A sessão foi maravilhosa. Um sujeito gritou – ‘Mata Glauber, pega a via da direita’, a da aventura. Mas os irmãos e os primos, os camaradas, seguem a via do 3° Mundo, o que não significa que o quarteto Pretti/Parente esteja reinventando Glauber, ou o Cinema Novo. Uma das coisas que ficaram claras para mim, aqui em Tiradentes, assistindo não apenas aos longas da Mostra Aurora, que tem curadoria de Cleber Eduardo, mas também aos curtas da mostra acho que Foco, cujo curador é Eduardo Valente, tive essa sensação de que a garotada – Tiradentes é uma mostra de primeiros e segundos filmes – dialoga muito mais com a herança do cinema marginal do que com a do Cinema Novo. E, por isso mesmo, acho que ‘eles’ – Sganzerla, Bressane, Andrea Tonacci – venceram e o cinema marginal, mesmo que Bressane considere a etiqueta ‘negativa’, está muito vivo. Conversei com meu amigo José Carlos Avellar e ele me corrigiu uma informação. Os filmes da empresa Belair, os sete que Rogério Sganzerla e Júlio Bressane fizeram durante 3 meses de 1970, não permanecem inéditos, como fui induzido a crer, a partir do que foi dito no debate. Eles foram lançados, sim, mas tiveram uma circulação reduzida, como em geral ocorre com esse cinema de invenção, que não é o de mercado. Nem me passa pela cabeça que o cinema de invenção substitua o de mercado, o que eu quero, e acho que qualquer pessoa comprometida, engajada, vai querer, e defender, é que ele tenha um espaço. Se depender de mim, ‘Ythaca’ vai ter um distribuidor, vai passar no Espaço Unibanco, na Reserva Cultural ou no HSBC Belas Artes, que são os espaços para essa produção mais alternativa. Não gostaria que ocorresse com ‘Ythaca’ o que houve com ‘A Fuga da Mulher Gorila’, que ganhou a Mostra Aurora do ano passado e até hoje está inédito. Francisco César Filho, o Chiquinho, que coordenava os debates, teve o mesmo encantamento que eu por ‘Ythaca’ e por sua abordagem do universo masculino, da amizade. Chiquinho jura que ‘Mulher Gorila’ é tão bom quanto. Me disse ele que se trata de outro filme de estrada, com duas mulheres. Quero ‘A Mulher Gorila’, como amei ‘Ythaca’, mas não me passa pela cabeça que o filme do coletivo de Fortaleza ambicione o público, ou o circuito, de ‘High School Musical – O Desafio’, que estreia na próxima sexta-feira. Mas clamo aqui por um circuito para a invenção, para ‘Ythaca’, pelamor de Deus.