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Luiz Carlos Merten

10 Dezembro 2006 | 11h18

Não sei, sinceramente, por que Xuxa me dispensa tanta atenção. Um pouco é por causa do produtor Diler Trindade, seu associado na Xuxa Produções. Tenho grande respeito e admiração pelo Diler, independentemente de gostar (ou não) de seus filmes. Diler é do bem. E é hoje o nosso produtor ‘industrial’ por excelência. Embora, como crítico, seja mais ligado ao cinema de autor, não negligencio a importância do cinema mais comercial. Diler teve este ano dois revezes com João Falcão – A Máquina, que eu amo, foi um fracasso e Fica Comigo Esta Noite teve um pouco mais de público, mas não muito mais. Por conta disso, os números do cinema brasileiro baixaram em 2006. O cinema nacional tem tido uma média baixa e não é de hoje que depende de blockbusters (2 Filhos de Francisco, Carandiru) para alavancar a bilheteria e o share (a participação no próprio mercado). Diler vai ter uma arrancada neste final de ano, com os novos filmes de Xuxa, do Trapalhão e do Maurício de Souza, mas serão números para contabilizar em 2007. Enquanto colhe os frutos (espera) deste trio, Diler produz o novo documentário, social e político, de Maria Augusta Ramos, que, depois de Justiça, vai encarar agora a questão das Varas de Família e da Infância. Diler começou pequeninho e eu o sigo com interesse desde aquela época. Ele sempre me pediu paciência, dizendo que precisa criar uma carteira de filmes para poder diversificar a produção. E o que ele quer, no limite, é esta diversidade. Sem deixar Xuxa e Renato Aragão, ele quer e vai fazer outras coisas. Meu sonho, se o Bressane já não estivesse bem acompanhado pelo Tarcísio Vidgal, seria ver o nome do Diler associado a Bressane. O nosso rei do blockbuster e o nosso miúra. Mas, enfim, Diler me dispensa grande carinho e atenção e Xuxa, por tabela, entrou na dele. Ontem, ela me dispensou um tratamento que seria o sonho de muito jornalista. De fã, então, nem se fala. Xuxa ia me dar uma entrevista no Hotel Hyatt, após a pré-estréia de Xuxa Gêmeas no Shopping Jardim Sul. O filme estréia sexta, dia 15, e hoje o Fantástico mostra uma prévia do trabalho do diretor Jorge Fernando e da pré-estréia. Houve uma mudança de planos e Xuxa saiu do shopping diretamente para o aeroporto de Congonhas. Para manter o compromisso da entrevista, fui com ela no carro e depois ficamos uma boa meia hora conversando na sala Vip da Líder, enquanto o jatinho era preparado. Já critiquei, e muito, a erotização e a fetichização da infância que Xuxa não deixou de promover, levando menininhas de 3/4 anos a comprar sua sandalinha, seu shortinho e a repetir seus requebros. Mas esse consumismo é só parte da história. Não dá a dimensão de Xuxa nem do mito em que ela se transformou. Existe o algo a mais. Ela me disse coisas muito interessantes que compõem – sem ofensa nem trocadilho, porque não é o objetivo – o que não deixa de ser a pedgogia infantil, segundo Xuxa. É a maneira, totalmente de igual para igual, com que se relaciona com seu público. Não é à toa que hoje ele é formado por filhos dos baixinhos que a acompanham nestes 20 anos na Globo (e antes, até). Como ela diz – seus baixinhos viraram pais e mães e os pais e mães dos baixinhos de ontem agora são avós. Ela une, em torno de si, pelo menos três gerações de brasileiros. Há uma verdadeira devoção a Xuxa. Ela diz que eu sou muito observador, mas aqueles minutos de saída do shopping, com o carro avançando entre a multidão que se forma, invariavelmente, a cada aparição dela, valeram mais que um tratado sociológico. A gritaria, o esforço de quem queria tocá-la, receber o aperto de mão, o sorriso, a alegria de quem conseguiu, o desespero de quem não não e o choro de todos – pelamor de Deus, essa devoção, sem blasfêmia, me lembrou o documentário Fé, do Ricardo Dias, ou o Santo Forte, do Coutinho. Me lembrou Erico Verissimo, o grande escritor gaúcho de O Tempo e o Vento, que cria diversos personagens para discutir ideologias em seu microcosmos da história do Rio Grande, do Brasil e do mundo, Santa Fé. O comunista que foi lutar na Guerra Civil espanhola descreve um comício da Passionária e o fervor é tanto que o seu companheiro cínico diz que ele teve um transe místico e viu, na Passionária, a sua Nossa Senhora. Não sou fervoroso, também não quero ser cínico, mas o que eu vi ontem me impressionou demais.

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