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Luiz Carlos Merten

25 Agosto 2009 | 12h46

Entrevistei ontem José Alvarenga Jr., diretor de ‘Divã’ e ‘Os Normais 2’, que estreia na sexta. Sei que não é filme para todos os gostos e alguns coleguinhas vão odiar, mas confesso que, para um trabalho feito com o objetivo declarado de fazer rir, ‘Os Normais 2’ cumpre o que promete. Esclareço que este post vai ter palavrão, e cabeludo, porque não dá para falar do filme omitindo sua verborragia, em grande parte baseada no restabelecimento das virtudes cênicas do palavrão, que o linguajar ascético da televisão terminou por banir do audiovisual brasileiro. Assisti ao filme sexta-feira à tarde, numa cabine sozinho. Como ia para o Rio no fim de semana e meu vôo de volta era na manhã de ontem, havia o risco de perder a cabine, consequentemente prejudicando o crionograma das entrevistas, a seguir. Na cena do ‘ménage à trois’ com a bi, de bicampeã de lutas – que os personagens de Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães pensam ser bissexual -, o absurdo é tão grande que estourei de rir. Era incontrolável. Alvarenga esclarece que ‘Divã’ era uma comédia romântica e ‘Os Normais 2’ já nasceu com este objetivo declarado de recuperar a boa ‘putaria’, a safadeza prazerosa do sexo, que foi substituída ultimamente na vida brasileira pela outra putaria, da politicagem. Alvarenga usa a palavra com toda naturalidade, como Fernanda Torres diz ‘xoxota’ e Luiz Fernando, ‘piroca’. Não vou dizer ‘seriedade’, porque o termo não é esse. Quando você vê, o palavrão já saiu e você nem percebe que já está tergiversando sobre o assunto há tempos. Como Alvarenga é workaholic, está sempre trabalhando em dois ou três projetos ao mesmo tempo. Um deles é um musical inspirado em ‘Houve Uma Vez Um Verão’, o Verão de 42, de Robert Mulligan, que o diretor considera um dos filmes mais ‘sexuais’ do cinema. O outro – não projeto, mas filme ‘sexual’ -, segundo Alvarenga, é ‘Sob o Domínio do Medo’ (The Straw Dogs), de Sam Peckinpah, que ele admite ter sido o que mais o perturbou na vida. A cena em que a mulher, Susan George, goza sendo estuprada e provoca o descontrole do marido, levando Dustin Hoffman a pegar em armas, menos talvez em defesa do seu castelo – o lar – do que para lavar a honra ofendida, é um dos momentos certamente mais polêmicos da história do cinema (e no começo dos anos 70, então, irrompeu como um cataclismo no imaginário do público, provocando a imediata indignação da censura do regime militar). Alvarenga é cinéfilo de carteirinha. Vê, como diz, pelo menos um filme por dia. Não o conhecia pessoalmente. O primeiro encontro, cara a cara, foi na entrevista de ‘Divã’ – que, a propósito, fez 1,9 milhão de espectadores. O sucesso de público não é o único nem o melhor critério de avaliação de um filme, mas se o objetivo declarado é ganhar os espectadores acho muito salutar que se discuta se a obra chegou lá (ou não). Gostei, gosto de conversar com ele. Alvarenga tem idéias, é articulado e sabe o que faz, por que faz. Fernanda Torres, que, além de divertida e talentosa, tem muita experiência de set – afinal, trabalhou com o maridão Andrucha Waddington e com Arnaldo Jabor, Walter Lima Jr., Walter Salles e Daniela Thomas etc -, diz que Alvarenga é o mais amado dos diretores. Ele é alto, um ‘gigante’, brincalhão com os atores e a equipe, mas muito seguro. E, como diz Fernanda, Alvarenga ‘é um diretor que gosta de voltar para casa’, sabendo fazer render o ‘serviço’ justamente porque quer encerrar a jornada (para poder ver filmes?). Encerrada essa digressão, volto ao que talvez seja o objetivo inicial – e final – do post. ‘Straw Dogs’. Vocês sabiam que Hollywood vai fazer, ou já está fazendo um remake do cult de Peckinpah? Que medo, meu Deus… Aliás, em termos de refilmagens, tem aí o novo ‘Sequestro do Metrô’, com Denzel Washington e John Travolta, adaptado do filme antigo de Joseph Sargent, de 1974, com Robert Shaw e quem mesmo?, Walter Matthau? Duvido que o novo seja melhor, até porque Sargent era um diretor muito bom, que terminou indo para a televisão porque no cinema estava condenado a fazer ‘Tubarão’ 4, 5 e 6. Outro remake, mas este promete – os irmãos Scott, Ridley e Tony, vão fazer não propriamente uma refilmagem, mas uma prequel de ‘Alien, o Oitavo Passageiro’. Já pensaram? Antes disso, Ridley parece estar fazendo – será que li direito? – um novo ‘Robin Hood’. Posso ser único, mas gosto do Robin Hood de Kevin Costner, direção de Kevin Reynolds, mesmo reconhecendo que Uma Thurman é uma melhor Lady Marian na aventura, feita ao mesmo tempo, de John Irwin. Adoro o velho Robin Hood de Michael Curtiz e William Keigley, com Errol Flynn e Olivia de Havilland, mas o maior de todos, e não foram poucos, ao longo da história do cinema, é o velho Robin Hood de Sean Connery, com Audrey Hepburn como Lady Marian, no maravilhoso filme de Richard Lester (‘Robin e Marian’), uma obra-prima, ou a memória estará me falhando?

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