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Luiz Carlos Merten

05 Março 2012 | 12h27

Não estou entendendo nada. Redigi o post ‘Domingão’ e, na sequência, o outro sobre a peça ‘Palácio do Fim’, mas, na hora de salvar, por mais que tente, a cronologia fica alterada e o ‘Domingão’ fica como texto mais recente. Enfim, faço a ressalva para redigir, mas agora quero falar de… Meryl Streep. E Sydney Pollack. Cheguei ontem em casa, já eram mais de 23 horas. Dei a clássica zapeada e estava começando ‘Entre Dois Amores’, Out of Africa. É um filme que nunca me canso de (re)ver. Mal sabia eu que, cada um em sua casa, meus colegas Jotabê Medeiros e Camila Molina também embarcaram, na mesm a viagem e não desgrudaram o olho da TV senão duas horas depois. ‘Entre Dois Amores’ biografa a baronesa Karen Blixen, que entrou para a história da literatura como Isak Dinesen. ‘Tive uma fazenda na África…’ O filme reconstitui justamente a experiência africana da futura escritora. Foi feito em 1985 e ganhou cinco Oscars, incluindo os principais do ano. Filme, diretor, roteiro, fotografia e música. Meryl foi indicada para melhor atriz, mas perdeu para… Teria de pesquisar para ver quem venceu. Certamente não merecia. Meryl é poderosa. Tem aquele marido canalha, mas um canalha simpático, o barão Blixen, interpretado por Klaus Maria Brandauer. Casaram-se por interesse – ele, por dinheiro, a família dela queria um título. Karten, no filme, admite que gosta mais do marido do que esperava, mas ele não é fiel. Vive partindo. Ela encontra o seu homem, o caçador Robert Redford. E como ela o seduz? Com a palavra, contando histórias, como Xerazade. Pollack fez grandes filmes – ‘A Noite dos Desesperados’, ‘Mais Forte Que a Vingança’ (Jeremiah Johnson), mas eu confesso que tenho uma queda por ‘Out of Africa’. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, acusa o filme de ser paternalista e autocomplacente. Sempre acho que ele viu outro filme. O lirismo de ‘Entre Dois Amores’ é magnífico e o centro do filme é a bússola que Redford dá a Meryl/Karen e que ela transfere, no final, para o seu dedicado mordomo kikuia, para que ele se encontre, como ela se encontrou. O voo, quando Redford revela a África do alto para sua amada, e os leões sobre a sepultura preenchem, integralmente, a minha necessidade de ser ‘surpreendido’, como Greta Garbo, que teria dito a Jean Cocteau, diante de ‘A Bela e a Fera’, ‘étonne moi’. Já disse que sou muito bom de cama. Deito-me e durmo no ato. Ontem, não conseguia. A bela trilha de ‘Entre Dois Amores’ ficou martelando no meu ouvido.