Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Wyler

Cultura

Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2006 | 10h05

Escrevo, uma coisa puxa a outra e aqui estou eu para falar de William Wyler. Coloquei o Wyler com o Fred Zinnemann como os dois talentos oficiais de Hollywood nos anos 50 e poderia acrescentar o George Stevens. Ford era outra coisa. Já tinha ganhado seus quatro Oscars, mas estava no limbo. Rastros de òdio, de 1956, foi ignorado pela crítica e pelo público americanos e só com o tempo adquiriu o status de clássico. Wyler, portanto, e Stevens, e Zinnemann. De todos, o que menos gosto é o último. Acho os melodramas de Wyler com Bette Davis primorosos, gosto daquele western dele (Da Terra Nascem os Homens) e duvido que o Pasolini tivesse feito Teorema sem ter visto O Colecionador. Wyler era a obsessão do Bazin, teórico francês que dissecava a forma nos filmes dele, vendo na utilização da profundidade de campo pelo diretor uma maneira de permitir que o espectador fizesse seu corte dentro da cena, ou que escolhesse seu personagem para melhor observar. Veja cem vezes A Carta, ou Pérfida, e duvido que sua visão dos filmes possa ser a mesma. Respeito muito a trilogia do Stevens, Um Lugar ao Sol, Os Brutos Também Amam e Assim Caminha a Humanidade, mesmo reconhecendo que, no primeiro, é duro de agüentar um cara sendo condenado pelo crime de intenção. Montgomery Clift não matou a Shelley Winters, mas queria matar e isso basta para condená-lo. É um puritanismo horroroso, mas tem a ver com essa ‘tragédia americana’ que o Dreiser, autor do livro, pensava mais como luta de classes e o Stevens trata como dilaceramento ético. Mas o Zinnemann não tem jeito comigo. Acho que foi o Sérgio Augusto que disse que ele era o acadêmico mais bem sucedido do cinema americano. Zinnemann é tão pomposo, tão autoconsciente. Não fazia filmes – fazia pronunciamentos. A Igreja, a religião, a guerra. Pode-se ver na sua obra uma vontade de pensar a sociedade dos EUA, de ir além do que autorizava o Código Hays (de censura) do cinema americano e, neste sentido, sua atividade foi importante. Mas Zinnemann foi osso duro. O Homem Que Não Vendeu Sua Alma, de 1965/66, por aí, sobre Tomas More, me parece um tédio. Pior ainda foi O Dia do Chacal, que funciona como um mecanismo de relógio. Tudo certinho, mas sem emoção. Até o remake do Michael Caton-Jones, O Chacal, com Bruce Willis e Richard Gere, me parece ter mais vida. E todo esse papo começou por uma rápida citação a Wyler e Zinnemann no post anterior, sobre Scarlett Johansson, Dália Negra, De Palma – e as divas. Ah, sim, antes de ser a malvada, Bette Davis foi uma diva para Wyler e a redenção dela, toda de branco, no desfecho de Jezebel, faz parte daquelas emoções que um espectador de cinema pode carregar por toda a vida.

Encontrou algum erro? Entre em contato