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Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2008 | 19h09

Eu e meus posts. Estava quase fechando meu terminal, mas não resisto a acrescentar mais um. Havia feito aquelas breves referências a Woody Strode no post sobre Obama, me deu uma vontade de escrever mais sobre ele e aí vi o comentário do Celdani. Vamos ao Woody Strode. Lembro-me que uma vez fui procurar não sei o que sobre na internet e encontrei num verbete, acho que da Wilkipedia, uma história que me encantou. Conta a lenda que não sei qual executivo de Hollywood mandou chamar John Ford com urgência a seu escritório e o mestre fez saber que não podia ir, porque estava conversando com seu amigo Woody Strode. Há 60 e tantos anos, quando ele surgiu como atleta – de declato e futebol –, matar negros era esporte de brancos n Sul dos EUA. Foram necessárias muitas décadas para que os negros adquirissem direitos civis, para que astros negros conquistassem Hollywood – hoje o maior de todos é Will Smith – e, mais importante ainda, para que Barack Obama chegasse à presidência dos EUA, o primeiro afro-americano a se sentar naquela poltrona, no Salão Oval. Consagrado como atleta, Woody Strode iniciou uma carreira no show bizz, filmando sem parar nos anos 40 e 50, mas eram papéis pequenos, secundários em filmes também secundários. OS EUA, este grande país, sempre foram ambivalentes e gostaria de lembrar que Hattie McDaniel, a genial mucama de Scarlet O’Hara, ganhou o Oscar de coadjuvante de 1939 por ‘… E o Vento Levou’, mas não pôde ir à estréia do filme em Atlanta porque as leis raciais da Georgia impediam que uma mulher negra se sentasse com brancos na mesma platéia. Woody Strode talvez permanecesse um ator ‘de fundo’, mas por volta de 1960 algo se passou em sua carreira e foi o encontro com dois dos maiores diretores do cinema. Ele já havia feito um papel na arena de ‘Demetrius e os Gladiadores’, mas aí Stanley Kubrick lhe deu aquele personagem magnífico em ‘Spartacus’. Simultaneamente, Woody Strode iniciou sua parceria com John Ford em ‘Audazes e Malditos’, ‘O Homem Que Matou o Facínora’, ‘Terra Bruta’ – onde o grande diretor fez com que interpretasse um pele-vermelha! – e ‘Sete Mulheres’. Será que esqueço algum? Woody Strode tinha aquela figura majestática, imponente, que Ford e Kubrick sacralizaram. Nos 60, foi a vez de os italianos o descobrirem e ele fez aquele papel na abertura de ‘Era Uma Vez no Oeste’, muito bem lembrado pelo Celdani – ave, Sergio Leone –, mas grande mesmo foi o Cristo negro de ‘Sentado à Sua Direita’, a paráfrase bíblica de Valerio Zurlini, que o grande diretor fez acho que em 1968, um ano emblemático, antes de ‘A Primeira Noite de Tranqüilidade’ (La Prima Notte di Quette), com Alain Delon. Outros atores negros tiveram maior reconhecimento na história do cinema, outros ganharam mais dinheiro, mas nenhum teve o privilégio de ser chamado de amigo por John Ford nem de ter convivivido com autores de gênio, que fazem parte da história. Woody Strode morreu em 1994. Sei que ele escreveu um livro autobiográfico, ‘Goal Dust’, ou alguma coisa assim. Fecho agora meus olhos e o revejo hierático, majestoso, como ‘Captain Buffalo’, que é como eram chamados os soldados negros que integravam a Cavalaria, em ‘Audazes e Malditos’, de Ford, que usava como fundo as canções dos Sons of the Pioneers. Ford personificava, mais até do que amava, o espírito ‘americano’. A vitória de Obama realmente me afetou. Estou sensível demais, viajando nas minhas lembranças cinematográficas. Torcia tanto por Obama. Espero que exorcize o horror dos últimos anos. Tantos negros o precederam nessa luta e Woody Strode não foi o menor deles.