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Cultura » Woody Rohmer?

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Luiz Carlos Merten

16 Maio 2008 | 16h46

CANNES – Fui ver o novo Woody Allen, ‘Vicky Christine Barcelona’, e confesso que não sei mais como reagir a um filme desses. No princípio, parecia que ele ia refazer ‘Match Point’ – a pequena teia de acasos que pode decidir a vida das pessoas, tanto para um lado como para outro -, mas depois terminaram por me irritar a frivolidade, o excesso de música para acentuar o ritmo (a guitarra espanhola) e uma coisa que, sei lá, nunca tinha notado (ou, pelo menos, antes não me irritava). O cinema dele é muitas vezes narrado, mas desta vez me saltava aos olhos a reiteração do discurso pela imagem (ou da imagem pela palavra). Scarlett Johanssen passeia enfadada e o narrador fica dizendo tudo aquilo que a gente vê, sobre a sensação que a consome. Engraçado, mas há mais de 40 anos Truffaut resolveu isso melhor ao tentar expressar o turbilhão interior que consome a terna e cruel Catherine de ‘Jules e Jim’ (e que eu acho que, no fundo, é o modelo para as mulheres de ‘Vicky Christine’). Em outras circunstâncias, poderia até ter gostado de ver Scarlett interpretando Woody Allen no começo, com suas neuroses, suas ansiedades, mas aquilo tudo foi me exasperando – a folclorização da latinidad, já que Javier Bardem e Penelope Cruz formam o casal caliente que não consegue viver junto nem separado e passa o filme todo se agredindo, física e verbalmente; a mitologia do garanhão espanhol e do norte-americano reprimido, o fato de que nunca fica claro que aquela gente tranbalha para pagar os vinhos finos que consome etc. O pai de Javier, no filme, é um poeta que não aceita ser publicado porque odeia a humanidade e esta é a sua forma de puní-la, privando-a de seu gênio. A turma de Wall Street é chata (e deve ser mnesmo), os artistas são libertários, mas me desculpem – quem paga as contas e a bela villa em que mora o poeta que recusa sua conspurcação pelo mercado: Vejam como o filme exasperou, porque este é o tipó de pergunta que nunca faço, mas me pareceu tudo tão gratuito que não resiosto. Estou desabafando, eu sei, mas cansei do Woody Allen ficar se explicando sobre sua separação de Mia Farrow – a necessidade de ser autêntico, de seguir os instintos etc. Se ele tivesse coragem de falar na primeira pessoa acho que poderia me interessar, mas Woody Allen fica tecendo essa história frívola de duas amigas que têm diferentes perspectivas do amor. Uma (Scarlett) quer viver o amor impulsivamente, e embarca na viagem que o pintor Javier Bardem lhe proporciona, a outra (Rebecca Hall) quer estabilidade, mas se apaixona pelo pintor e, ao não assumir, fere-se (fisicamente) e termina se condenando a uma vida infeliz. Me deu a sensação de que o Woody Allen de ‘Vicky Christine’ quer fazer um conto moral à Eric Rohmer, mas ele perdeu a mão e o conto sai imoral, mais até esteticamente do que do ponto vista ético (e comportamental). O público ria, o filme foi aplaudido no fim, mas o que eu acho que me estimulou a este desabafo foram as vaias, que o filme também recebeu. Enfim, vocês provavelmente vão ouvir muitos elogios ao Woody Allen, assim como críticas ao Desplechin (Um Conto de Natal), do qual gostei muito. Aguardem os filmes, porque ambos vão chegar aí no Brasil.