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Cultura » Woody me explicou o por quê de ‘Hollywood Ending’

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Luiz Carlos Merten

14 Maio 2011 | 18h54

CANNES – Tive hoje um dia bem movimentado que começou às 8h30 assistindo a ‘Las Acacias’, do qual gostei muito, mas o filme integra a seleção da Semana da Critica, e não concorre à Palma de Ouro. Prossegui minha seleção com dois franceses, ‘O Fim do Silêncio’, de Roland Edzard, com Maya Morgestern, a Virgem Maria de Mel Gibson (em ‘A Paixãoh de Cristo’ (na Quinzena)), e ’17 Filles’, de Delphine e Muriel Coulin (também  na Semaine de la Critique). O primeiro é uma tragedia familiar desenrolada nos Vosges, na Floresta Negra, e a paisagem não só participa como potencializa as destruidoras relações familiares, convergindo num final que me deixou sem fala, de tão impactante. Tenho pensado em ‘La Fin du Silence’ e o filme cresce, ao contrario do de Nani Moretti, sobre o qual prometo parar de pensar, pois ‘Habemus Paspam’ só piora.  O segundo baseia-se num fato real ocorrido na Franca, quando as alunas de uma escola secundária resolveram engravidar ao mesmo tempo. Em ambos os filmes, e com intenções e dimensões diferentes, a maternidade está em discussão e é um belo tema. Para falar a verdade, ‘Las Acacias’ tambem é sobre uma mãe e seu bebê, que caem na estrada com um caminhoneiro. Sem exagero, esse agentino é o melhor filme que vi ateh agora, mas, por participar de uma mostra paralela, não pode ambicionar à Palma de Ouro. Sei que o melhor do post vem agora. De tarde, entrevistei Gus Van Sant, por ‘Restless’, e Woody Allen. Por cortesia da Paris Filmes, que distribui no Brasil ‘Midnight in  Paris’, Meia-Noite em Paris, tive direito a uma one a one com ele. Seriam  20 minutos, mas ultrapassamos o tempo e foi um conversa muito agradável, que não vou relatar aqui porque não quero furar o ‘Caderno 2’. Falamos de muita coisa, inclusive de Machado de Assis e dos filmes favoritos de Woody, que me explicou. Ele concorda que ‘Hannah e Suas Irmas’, ‘Crimes e Pecados’, ‘A Rosa Púrpura do Cairo’, ‘Zelig’ e ‘Maridos e ESposas’ são seus melhores filmes, mas se cita ‘Hollywood Ending’, Dirigindo no Escuro, é por pirraça. O filme foi hostilizado pela critica norte-americana, mas Woody, por isso mesmo, não perde a chance de espicaçar  os críticos de seu pais, como se os estivesse chamando de ignorantes. Mas o dia ainda não havia terminado. À noite tivemos ‘Le Gamin au Vélo’, o garoto da bicicleta, o novo Irmãos Dardenne, que confesso que estava me irritando, mas tem um final que faz a diferença, embora eu não seja louco de achar que seja um grande filmes da dupla de cineastas belgas. Tudo bem, Hollywood, o cinema dito ‘industrial’, o cinemão, abusa das fórmulas, mas o cinema de autor também tem as suas fórmulas, os Dardennes que o digam. A despeito do realismo, epidérmico e urgente, que está na base do cinema deles, ‘O Garoto da Bicicleta’ pode ser visto, ou entendido, como uma fantasia sobre a má consciência dos europeus. Bela e talentosa, Cécile de France acolhe, do nada, esse menino rejeitado pelo pai e que vai aprontar muito mais do que tem direito. Como raras vezes em sua carreira,  os Dardenne recorrem à música e solenizam seu filme, em momentos chaves, incorporando à trilha um trecho do adágio do concerto número 5 para piano de Beethoven. Sei que muita gente gostou, mas eu me pergunto. Já estamos praticamente no quinto dia do festival, o domingo. Para quando o grande filme que vai nos bouleverser e fazer torcer pela Palma? O Almodóvar? O Terrence Malick? Honestamente, eu trocava os Dardenne pelo diretor argentino Pablo Giornelli e acho que o cinema também ganharia com isso.