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Wong Kar-wai na Colônia de Férias

Luiz Carlos Merten

14 Julho 2017 | 09h09

Na semana passada, no início da Colônia de Férias do Belas Artes, consegui emplacar uma matéria sobre a programação dedicada a François Truffaut no impresso e ainda dediquei vários posts ao assunto. Esta semana o espaço estava exíguo e a correria muito grande. Não consegui fazer nada no impresso nem no online sobre Wong Kar-wai. A Colônia de férias exibe cinco longas do diretor, todos em película. 35 mm! Tive o privilégio de entrevistar Kar-wai em Cannes, e foi por Amor à FLor da Pele. Maggie Cheung naquele corredor, em slow motion, ao som de Nat King Cole. Laura Haddock, Maggie! O balanço dessas mulheres admiráveis. Kar-wai me contou que filma roteiros muito completos, e que depois, na montagem, desconstrói a narrativa. Para isso, ele precisa ter muito material. É, talvez num outro sentido, o parecido de George Stevens, que filmava a cena mais banal com diversas câmeras, e de diferentes ângulos. Cinema é montagem – Stanley Kubrick. Para Stevens e Kar-wai, também. Na montagem, eles buscam,, e invariavelmente encontram – nos maiores filmes, pelo menos -, o ritmo, as combinações de planos, de imagens, de sons. George Stevens, um dos cinco que voltaram – na 2.ª Grande Guerra ele integrou a equipe formada por Frank Capra para documentar o avanço dos aliados; filmou os campos de extermínio, e seu material foi usado pela acusação nos julgamentos de Nuremberg -, Stevens, repito, era um dos diretores que os críticos e cineastas da nouvelle vague amavam odiar. Diziam, os François Truffaut, que seu método era a confirmação da ausência de mise-en-scène. Truffaut, que morreu em 1984, não teve tempo de descobrir o cinema de Wong Kar-wai. Felizes Juntos e Amor à Flor da Pele são dois dos filmes mais belos do mundo, mas só o primeiro integra a mostra do Belas Artes. O segundo é substituído por 2046 – Os Segredos do Amor, que tem momentos (fragmentos?) belíssimos, mas não é, há que admiti-lo, tão bom. Lai e Ho, Tony Leung e Leslie Cheung. O par de namorados de Hong Kong atravessa o mundo para viver na Argentina. Felizes juntos? A relação é intensa, mas instável. Brigas e reconciliações. Ho é promíscuo. Vai e vem nos seus amores expressos (título de outro filme da programação). Felizes Juntos tem o que é, para mim, um dos mais (o mais?) belo plano filmado. A limpeza de um matadouro. Sangue por toda parte. Nós que nos amávamos tanto. Independentemente de gênero. Kar-wai antecipou de quase dez anos O Segredo de Brokeback Mountain, de outro autor chinês, Ang Lee. Para mim, o filme dele é melhor. Mais sofrido, mais visceral. E com Caetano Veloso na trilha, Cucurrucucu Paloma. Leslie Cheung matou-se em 2003, seis anos depois de Felizes Juntos, que é de 1997. Tony Leung seguiu filmando com Kar-wai – 2046, O Grande Mestre (o suntuoso filme de artes marciais do diretor). Felizes Juntos recebeu o prêmio de direção em Cannes e Amor à Flor da Pele, os de melhor ator (Tony) e o grande prêmio técnico. Em 2006, Kar-wai presidiu o júri e a imagem de Maggie (em Amor à Floor da Pele) ilustrou o cartaz de Cannes. Surpreendentemente, para um estilista romântico, a Palma de Ouro foi para o cinema político de Ken Loach, Ventos da Liberdade. Dez anos mais tarde, Loach ganhou sua segunda Palma, por Eu, Daniel Blake, e o júri era presidido por um mestre de ação, George Miller. Ou seja, dada a composição dos júris, duas Palmas improváveis, mas Loach levou. Viva Wong kar-wai.