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Wim Wenders (e aprendendo)

Luiz Carlos Merten

13 Novembro 2007 | 09h41

Fiz hoje um destaque, nos Filmes na TV, sobre ‘Paris, Texas’, meu Wenders preferido,e só ao chegar em casa, ontem á noite, recebi a correspondência da Tatiana Wolf, que faz a assessoria da rede Telecine, me informando que se trata de um ciclo dedicado ao diretor alemão. Durante todo este mês, e sempre aos domingos, com reprise na terça, o Telecine Cult vai exibir (os próximos) ‘Asas do Desejo’, ‘Tokyo-Ga’ e ‘Estrela Solitária’. Não por coincidência, esses filmes também integram a Coleção Wim Wenders da Europa e eu não resisto a postar aqui uma confissão. Wenders foi um daqueles autores que o Instituto Goethe ajudou a tornar conhecido no Brasil, promovendo ciclos e ciclos sobre sua obra. Vi meus primeiros Wenders lá em Porto Alegre e pirei por ‘Paris, Texas’, quando estreou nos cinemas, com aquele endemoniado Travis (Harry Dean Stanton) avançando pelo deserto, magnificamente fotografado por Robby Müller e com a música de Ruy Cooder ao fundo. Lembro-me que lá em Porto eu ainda lia os jornais de São Paulo – não sabia que viria para o Estadão – e acompanhava a transformação de Wenders em mito. principalmente na Folha. Lembro-me de um texto de Matinas Suzuki chamando Wenders de Sr. Cinema dos anos 80. Nem lembro quais eram os argumentos para sustentar a frase de efeito, mas ela ficou na minha memória. Quando vim para São Paulo, no final de 1988, cheguei aqui, por incrível que pareça, no encerramento da Mostra, que exibia justamente ‘Asas do Desejo’, um filme sobre o qual eu ouvia falar, e que se transformara, pela raridade, num cult como ‘A Laranja Mecânica’, no comelço dos 70. (Não estou comparando os dois filmes, notem bem.) Corri à Sala Cinemateca, onde haveria a sessão e não encontrei mais ingressos. Só vi ‘Asas do Desejo’ anos mais tarde, e não foi um filme no qual embarquei. Gosto muito de ‘Tokyo-Ga’, a homenagem de Wenders a Ozu, mas acho que o Sr. Cinema se perdeu nos 90, quando fez, um atrás do outro, alguns dos piores filmes de sua carreira. Entrevistei Wenders algumas vezes – em Cannes – nos anos de ‘Até o Fim do Mundo’ (horroroso), ‘Tão Longe, tão Perto’ (outra abominação, para mim, pelo menos) e, quando achava que ele estava acabado, amei ‘Estrela Solitária’ (e o diretor estava ótimo, numa entrevista bacana feita no jardim do Hotel Residéal, quando falamos de Hitchcock, Chabrol e Arthur Penn, que usaram o mesmo recurso visual que ele, a combinação de travelling avante com movimento de lente zoom, acachapando a imagem na cena em que Sam Shepard está no carro, na estrada). Pode parecer bobagem, mas eu fiquei pirado, em ‘Estrela Solitária’, com aquela aquela cena, após a briga, em que Shepard se senta no sofá, atirado no meio da rua, e vê passar o conversível dourado, uma coisa tão cafona quanto norte-americana. O que quero dizer é que antes era tão difícil ter acesso à obra de diretores importantes. Hoje em dia, Wenders está quase todo em DVD. Não creio que ele ele seja o Sr. Cinema, mas entendo seu carisma e, no ano passado, no Festival de Salônica, na Grécia, senti-me um privilegiado por poder assistir à Master Classs que Wenders deu em dupla com Walter Salles, um tratando o outro como admiração e respeito, e ambos falando sobre um assunto que dominam, o cinema de estrada. se você quiser conferir, ‘Paris, Texas’ passa às 19h20 no Telecine Cult.