Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Wilder e o mito de Sherlock Holmes

Cultura

Luiz Carlos Merten

01 Março 2010 | 14h23

Não contei para vocês. No sábado, em Paris, fui (re)ver ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’. Um dos últimos filmes de Billy Wilder, a produção de 1970 foi planejada para durar três horas e meia, mas o estúdio – a United Artists – optou por distribuí-la numa versão de 125 min. Wilder criou fama como diretor virulento, mas sua aproximação do mito do detetive criado por Conan Doyle, por menos conformista que seja, praticamente esgota suas ousadias no prólogo. O ‘vício’ de Sherlock – a 7% solution de cocaína –, a sugestão de homossexualidade na ligação com Watson (vejam que não estou usando homossexualismo; fui advertido de que tinha de ser mais correto em relação ao termo; o ‘ismo’ pressupõe doença) tudo isso é tratado no episódio inicial, da bailarina russa que espera que Sherlock seja o pai de seu bebê. O restante do filme é um relato de mistério, que se converte no trabalho talvez mais atípico da carreira do grande diretor. Digo talvez porque, no fim dos anos 1950, Wilder já se exercitara no mistério, usurpando de Agatha Christie o tema de ‘Testemunha de Acusação’. Existem críticos que consideram, ‘A Vida Íntima’ o filme mais hitchcockiano que Hitchcock não realizou. Se existe filiação, não é tanto pelo suspense, mas pelo clima gótico e romântico que aproxima este filme de ‘Rebecca, a Mulher Inesquecível’, de 1940. Wilder suprimiu dois episódios inteiros – e Sérgio Leeman, com quem almocei, depois de assistir a ‘Vida Íntima’, me contou como chegou a uma descoberta assombrosa. Um dos episódios ‘excluídos’ da versão definitiva chegou a ser localizado, mas possui apenas imagem, sem áudio, enquanto o outro tem áudio e nenhuma imagem, o que inviabiliza qualquer tentativa de recuperar a obra na sua integralidade. O importante é que, mesmo tendo seu trabalho adulterado, o diretor conseguiu dar unidade ao relato, na medida em que tudo, na abertura de ‘Vida Íntima’, remete – e fecha – a investigação que Sherlock e Watson levam sobre o desaparecimento do marido da falsa viúva e a sua implicação (dela) no roubo dos planos do novo armamento que a Marinha de Sua Majestade, a rainha Vitória, está desenvolvendo e que não é outra coisa senão o submarino. Aliás, a cena em que a rainha desautoriza o submarino porque é a negação do cavalheirismo na guerra – onde se viu atacar as embarcações inimigas sem que elas tenham a chance de se defender? –, é maravilhosa. Confesso que saí do cinema em estado de graça, tocado pelo romantismo do filme. Acrescento que, cada vez mais, acho ‘Irma la Douce’ um filme essencial de Wilder, embora Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, o considere ‘execrável’. Wilder começou na comédia e provou sua excelência no filme noir, antes de retornar à comédia, pela via do romantismo um tanto cínico de ‘Sabrina’ e ‘Amor na Tarde’. ‘O Pecado Mora ao Lado’ e ‘Quanto Mais Quente Melhor’ são os extremos humorados de suas provocações. Com ‘Irma la Douce’, acho que ele retomou o romantismo que deu o tom de sua última fase, com ‘A Vida Íntima’ e ‘Amantes à Italiana’ (Avanti!). Adorei (re)ver ‘A Vida Íntima’ no cinema, naquela telona, e o filme ainda tem Genevieve Page. Ela foi a princesa (dona Urraca) de ‘El Cid’, de Anthony Mann, e a Madame Anaïs, dona do bordel de ‘A Bela da Tarde’, de Luis Buñuel. Filmou com Christian Jacque (‘Fan Fan la Tulipe’), George Cukor e Charles Vidor (‘Sonho de Amor’, sobre Lizt) e Riccardo Freda (‘Cilada Sangrenta’). Era uma atriz classuda, sofisticada e muito interessante, lembrando um pouco (pelo físico) Eleonora Rossi Drago, mas loira e com uma voz meio anasalada, muito particular. Até por ela, ‘A Vida Íntima de Sherlock Holmes’ foi um regalo para mim. Fiquei pensando – o filme saiu em DVD no Brasil? E a propósito, Brad Pitt será mesmo o Moriarty de ‘Sherlock 2’, que Guiy Ritchie parece já estar tocando? Vocês sabem alguma coisa?