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Luiz Carlos Merten

08 Abril 2007 | 13h00

Havia assistido em Berlim, há dois ou três anos, a um encontro entre Walter Salles e Mike Figgis no Talent Campus para discutir música e cinema. Foi legal, mas o próprio Waltinho me confessou, depois, que não tinha muita afinidade com o cinema de Figgis e nem conhecia o cara. Foi legal, como disse, mas ambos ficaram tateando, sem saber direitro aonde ir. O encontro foi muito mais caloroso em Tessalônica, ou simplesmente Salônica, na Grécia, no fim do ano passado, quando WS e Wim Wenders foram convidados pelo festival para debater o cinema em movimento, o cinema de estrada. Waltinho reconhece em Wenders uma referência em seu começo de carreira, na TV e no cinema, mas o próprio WW descartou que a relação entre ambos pudesse ser de mestre e discípulo. Se havia um mestre, seria Waltinho, pois WW adora os filmes de estrada de seu colega brasileiro. Gosta principalmente de Diários de Motocicleta, tendo feito perguntas muito específicas sobre a realização do filme no altiplano peruano, coisa de quem viu e prestou muita atenção no que estava vendo. Wenders e o cinema de estrada nasceram um para o outro. Três dos quatro DVDs que a Europa está lançando na Wim Wenders Collection seguem a tendência. Falo no post seguinte sobre A Letra Escarlate e neste me concentro em Movimento em Falso, No Decurso do Tempo e O Estado das Coisas. Movimento em Falso foi o primeiro filme de Wenders com Nastassia Kinski, mostrando seis dias na vida de um homem sem qualidades, que sonha ser escritor e ganha da mãe uma passagem para Bonn, para que ele saia ao léu, observando o mundo (quem sabe em busca de inspiração). No Decurso do Tempo mostra este outro cara, um técnico de projetores de cinema, que viaja pela Alemanha visitando salas desativadas e que se liga a um cara meio baratinado porque acaba de se separar da mulher. Wenders mostrou cenas de No Decurso do Tempo e usou este filme para desenvolver seu conceito do filme de estrada, em Salônica. No Decurso do Tempo tinha uma tênue linha narrativa. Foi desenvolvido com os atores, na base da improvisação. Wenders contou uma coisa muito interessante. A equipe tinha um plano de rodagem, mas ia aonde leva a estrada. Chegaram a uma bifurcação. Seguiram por um caminho. Talvez o filme fosse outro, se ele tivesse escolhido a outra estada. O Estado das Coisas foi feito logo depois da experiência fracassada de Hammett, como se Wenders estivesse querendo se purgar do inferno que viveu como contratado do produtor Francis Ford Coppola para realizar, na American Zoetrope, um filme sobre Dashiell Hammett. Coppola e ele se desentenderam em tudo, brigaram e o filme se ressente disso. Não é um bom Wenders, mesmo que tenha grandes cenas. Mas este acidente de percurso foi fundamental para que Wenders fizesse O Estado das Coisas. Hammett enfoca o período em que o futuro escritor trabalhava como detetive. O tema é a passagem do mundo do crime para o mundo da arte, por meio da literatura. O Estado das Coisas mostra o percurso inverso. Um diretor sai do mundo da arte e ingressa no do crime ao seguir a trilha do produtor que desapareceu com os negativos do filme que ambos estavam fazendo, em Portugal. É muito interessante e além da ponte com Hammett, o filme propicia outra – com O Céu de Lisboa, que Wenders fez também em Portugal (e com trilha do Madredeus). A Coleção Wim Wenders da Europa é oportuna para que se reavalie a contribuição de WW. Nos anos 80, quando estava no auge, ele era chamado de Sr. Cinema. Nos 90, meio que perdeu o rumo e fez filmes desastrosos como Até o Fim do Mundo e Tão Longe, tão Perto. Wenders começou a ressurgir com seus documentários sobre música – Buena Vista Social Club e Viel Passiert, sua ode a Colônia e ao rock’n’-roll, com a banda BAP. O apogeu desta nova fase é Estrela Solitária, que fez com Sam Shepard, reformulando a parceria (e reiventando temas) de Paris, Texas, que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes, em 1984. Não sei quanto a vocês, mas devo a Wenders grandes emoções que a coleção da Europa já está me ajudando a recuperar.