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Luiz Carlos Merten

19 Agosto 2008 | 15h03

Tive uma tarde muito corrida ontem em Porto Alegre. A coletiva de Wim Wenders ocupou boa parte dela e logo em seguida houve a conferência dele, no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS. Antes de ir adiante, não posso deixar de assinalar. Aquele salão faz parte da minha memória afetiva, inclusive como cinéfilo. Foi lá que, jovem estudante, assisti às grandes retrospectivas do cinema soviético e, depois, do polonês, no começo dos anos 60. Fazia tempo que não entrava naquele espaço. Está mudado, o que me levou a uma viagem interior. Tanta coisa mudou em Porto. Principalmente, tantos amigos morreram. Em Gramado, a pedido da organização do festival, havia descerrado (com David Quintans) a placa em homenagem a Tuio Becker, no Palácio dos Festivais. Quando é, na minha vida, que eu ia imaginar que um dia faria isso? De volta ao Wenders, ele falou no ‘Cinema além das Fronteiras’. Muito sugestivamente, o evento do qual participava se chama ‘Fronteiras do Conhecimento’. Na coletiva, formulei uma questão especificamente sobre as novas tecnologias – o digital – já que, como presidente do júri do Festival de Cannes, em 1989, Wenders havia visto o futuro do cinema em ‘sexo, mentiras e videotape’, atribuindo a Palma de Ouro ao filme do então estreante Steven Soderbergh. Como a entrevista sai na edição de amanhã do Caderno 2, não quero me furar, antecipando os trechos mais interessantes, mas a coletiva teve momentos que, para mim, foram emocionantes e que não consegui colocar no meu texto de amanhã. Ivonete Pinto, da revistas ‘Teorema’, de Porto, pediu que Wenders falasse da parceria com Nicholas Ray, quando ele filmou a agonia do Rimbaud de Hollywood, daí resultando ‘Nick’s Movie’. A idéia inicial era fazer uma ficção a quatro mãos, mas aí Ray ficou terminal, com câncer, e a pedido dele Wenders passou a seguí-lo com sua câmera. Num determinado momento, a coisa ficou tão dolorosa que o diretor pensou em desistir, mas o médico lhe disse que, se parasse, abreviaria a vida do amigo. Ray manteve-se vivo por meses, semanas, dias. Definhou, mas sempre energizado pelo olho da câmera de Wenders sobre ele. Por sua ousadia em tratar de um tema tão tabu quanto a morte, acho ‘Nick’s Movie’ impressionante. Nem sei dizer se gosto, realmente, e nem importa, mas não conheço outro filme que vá tão fundo na discussão do cinema como veículo de vida e morte. De vida, por permitir que as coisas e pessoas continuem existindo como imagem. De morte porque, na imagem eternizada, sempre a mesma, está a própria negação do que é a vida. Só para concluir. À tarde, na coletiva, Wenders disse que, embora seja fotógrafo, escritor e diretor, sua profissão é ‘viajante’. À noite, ele acrescentou que não é um intelectual nem teórico de coisa nenhuma. Tudo o que aprendeu (e expressa em seus filmes) foi na prática. Mais uma coisa – ele leciona cinema numa escola de arte. Disse que seus alunos são todos jovens e que a grande descoberta recente que fizeram foi de grandes autores do cinema mudo. Wenders contou isso quando comentava que Angelopoulos é hoje um de seus autores preferidos (ele também adorava Antonioni). Os tempos lentos, aqueles travellings intermionáveis do Angelopoulos, o fascinam. Seus alunos também ficaram tão impressionados com esse cinema ‘lento’ que agora só querem fazer filmes assim, contra Hollywood.

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